sábado, 21 de novembro de 2009

ESPELHOS





Olhei, vi, pendurada na parede, a imagem embalsamada que, por muito tempo ainda, me manteria presa à vida. Queria que com ela se esvaíssem os enganos multiplicados, divididos, somados e subtraídos de uma felicidade fugaz. Queria desviar a vista e deixar que se apagassem no ar mensagens escritas no passado com o sangue das minhas metamorfoses.




Abro os olhos. Ah! Meus olhos. Neles, sombras de tristezas tão vivas, tão presentes me fazem sentir entre os braços uma saudade amarfanhada se aninhando, se enroscando projetando no espelho uma imagem impossível. Ali, naquele momento, senti a dor dividida. A dupla imagem da tristeza escrita no brilho prateado e enganoso dos espelhos. Surgiu assim, de repente, como se fossem nuvens. Agora sei, existem tristezas alegres e tristezas tristes. As tristes são as que se vestem de luto, de melancolia. Cobertas de cinzas, austeras e silenciosas alimentam-se de lágrimas e soluços. Apagam os olhos desenham imagens descoloridas, perigosas. Espelhos sem luz guardados nos esconderijos do tempo.




As tristezas alegres vestem-se de saudade, de nostalgia. Devolvem-nos lembranças de momentos felizes, chegam assim como raios de sol desenham nas nuvens o sorriso do arco-íris.




Meus olhos. Ah! Meus olhos aos poucos se apagam. Águas paradas já não choram lágrimas de alegria. Rios presos nos cascalhos das enxurradas. Espelhos apagados, espelhos sem luz.








segunda-feira, 26 de outubro de 2009

SONHOS & SONHOS



Temo o desconhecido nas armadilhas das curvas e das retas silenciosas. As paralelas me atraem. Entre elas se escondem as sugestões. Tenho medo. Sim tenho, da realidade, da indiferença, da verdade, da mentira. Medo que alimentou o meu primeiro choro.
Adormeço, acordo, adormeço. Confundem-me os dias que nunca sei como gastar. As estradas me esperam. As distâncias são abismos profundos sem começo, sem fim. Dormindo ou acordada os sonhos chegam. Dormindo, não há coerência nem lógica nas tramas tecidas pelo inconsciente. Acordamos da tirania imposta pelos sonhos, damos graças a Deus pela realidade dos enganos presentes. Mesmo às vezes nos perturbando, melhores, inofensivos, não somos responsáveis por eles, não os escolhemos. No entanto, sabem de tudo e se escrevem em linhas tortas tão tortas que nem o consciente consegue consertar. Apagam-se rapidamente sem deixar rastros. São os verdadeiros sem máscaras, sem planejamentos, sem expectativas.
Os que nos atacam durante a vigília, são os temíveis, os perigosos. Deles, acordar é pesadelo. Chegam no meio da noite afugentam o sono. Possuem duas caras – uma a que inventamos, a outra real. Comandam o imaginário e nos fazem caminhar por estradas cheias de promessas, idas sem retorno. Vestem-se de plumas e paetês, falsos reflexos que confundem a vontade e anulam o direito de escolha. Acenam com promessas mirabolantes e, para sermos felizes, fazemos questão de acreditar. Deles não acordamos, precisamos adormecer para esquecê-los.
Sonhar de olhos fechados é mergulhar em abismos dos quais não sabemos voltar. Sonhar de olhos abertos tem na realidade a certeza da volta.
Sempre queremos o melhor, o mais belo, o perfeito. Carecemos de ilusões para viver. Caímos nas malhas das promessas que nos fazemos. Com a decepção dos desencontros nos consolamos, apelamos para que tenha sido um sonho. Tantas vezes ficamos abstraídos do real, na esperança de que se torne verdade tudo quanto desejamos sem saber como alcançar o que tentamos fazer existir. Desencantados ainda repetimos - foi sonho.
Esta energia que flutua na superfície do corpo e percorre a pele levando a um despertar de desejos nunca sabemos onde começa, onde termina. Mergulhamos nas ondas sonoras de um sino que corta os sibilos do vento numa caminhada para trás. Ondas de um êxtase que se misturam à confusão do que é e do que poderá ser. Será que nos servem sonhos de consolação?
“Morrer, dormir, não mais termina a vida”. Expressões de um poeta que sabia exatamente de onde vêem e para onde vão os fantasmas dos nossos desejos.
O homem é o único animal que luta para ser feli, eternamente enganado pela própria imaginação.
Os sonhos da noite, involuntários e afoitos. Os do dia, necessários para alimentar a vida.
Em certa parte da Odisséia encontramos uma afirmação de que os sonhos nos chegam por duas portas divinas: a de marfim que é a dos sonhos enganadores e a de chifre que é a dos sonhos proféticos. Será que os sonhos que se antecipam são apenas ilusões, momentos enganadores?
Muitas vezes as enganações da noite se mesclam, com as do dia, deixando, por muitas horas ainda, uma agradável sensação de realidade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

LUZ E SOMBRA


No começo foi o sol. Dia claro, luz nos campos, estrelas inquietas. Um dia sem fim, ou quase sem fim. Horas enamoradas do repicar de sinos embutidos na folhagem. Cantata solene. Final de tarde nas abadias e conventos. Horas multiplicadas nos sorrisos de crianças ainda verdes, adolescentes à espera da colheita do corpo maduro até o apagar de um por de sol no horizonte. Velas acesas iluminam cantigas de ninar. Vendaval enlouquecido, folhas secas no chão, sonhos brancos, lembranças manchadas de luz, estrada de Jericó, caminhos de Damasco, onde o homem desfeito de suas vestes cobre-se de andrajos e põe na cabeça o engano de uma auréola sem cor.

Asas de anjo coladas com lágrimas e segredos na alma do homem - experiência da criação - crateras de angústia, abismos de infâncias esquecidas.
No princípio o vôo, a carreira solta, o grito de águia veloz nos céus de abril. Espanto diante da vida, pintada ao redor de um mundo aureolado de estrelas, coberto de pó, mistérios de dias e noites nos enganos da pureza. Paz na terra aos homens de boa vontade.
No agora, calma, paz silêncio, restos que mal denunciam a presença de uma vida antiga começando de novo. No ontem, apenas o ontem.
Jamais a ressurreição.
Das asas queimadas, as cinzas.
Na alma presa, a ausência da virtude, a melancolia.
Faça-se a escuridão.
Assim foi feito.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

IMAGEM APAGADA


Não sei onde começa nem onde termina teu mundo. Se ao menos soubesse onde estás, mandaria o pensamento passar por lá, de vez em quando, para ter ver novamente.

O veneno da tua ausência contamina minha alma e a saudade se transforma numa ameaça de morte. O vírus inoculado se multiplica e me divide.
Vivo sem claridade, na opressão do silêncio, silêncio que apagou o mundo num anoitecer prematuro.
Entro no mistério dos espelhos. As dúvidas e as dívidas me coagem. Tudo quanto não sei de mim está enterrado na agonia de almas queimadas no Apocalipse.
Sequestro as idéias. Obrigo-as a pensar. Seqüestro relâmpago que não dá certo. Desfaço sonhos como se apagasse erros. Alguns me ameaçam: voltarão com a saudade.
Sei que pertenço ao mundo, sou de algum lugar, não estou perdida, nem esquecida, nem escondida.

Vou e volto. Não posso ficar. Decreto a morte de preconceitos, de leis, de mandamentos. Obedeço à minha desobediência.
Livre de freios despenco ladeira abaixo sem me importar com as pedras que rolam atrás de mim.
Alma infiel. Para não sofrer, foge em busca de sonhos.
Não tenho medo, descartáveis, substituidos nunca serão iguais.
O esquecimento me apaga dentro de mim e me destroi nos espelhos.
Na parede o quadro negro.

sábado, 1 de agosto de 2009

O SORRISO DA BORBOLETA



O SORRISO DA BORBOLETA

Dedico tudo quando fiz até hoje, quer escrito pensado ou sentido a todos os que me amaram, pensaram que me amaram ou simplesmente me aceitaram. Faço esta oferenda sem altar nem vestais, usando apenas o fogo da obstinação e da teimosia, forças que carrego e alimento para viver.Poderia ter-te esperado para somente a ti falar sobre borboletas coloridas sorrindo no meu sorriso, afastando morcegos sombrios misteriosos em vôos cegos nas tardes que morrem enquanto tento viver. É assim nos meu sonhos, tudo voa, tudo brilha, tudo é vida.
Bem poderias ter esperado para ver os meus sorrisos, ouvir as gargalhadas e passar comigo pela ponte sobre o rio jogando sobre as águas nossas sombras cruzadas, e as palavras sufocadas na emoção dos sentidos. De que palavras falei? Já nem lembro. Sei apenas que fui feliz. Bem que eu poderia ter te esperado para me ajudares nas escolhas. Se me perguntares, quais, também não saberei dizer. Na verdade, nunca soube de nada além do meu sorriso.
Quando a noite se veste de eclipse e apaga a luz nos meus olhos eu te quero, aqui, bem aqui, para sugares a seiva adocicada na maciez do meu rosto e, com ela, alimentar nossos sentidos. Ah! Por que não esperaste? Por que me dividiste em duas metades tão diferentes?O que me atrapalha a vida é viver. Não me preparei para ela. Vivo de improvisações. De manhã tenho que inventar um novo dia. Surpresas confusas diante dos meus olhos. Nunca sei qual o próximo passo. Alguns, pontos finais, outros, reticências, geralmente interrogações protelando as respostas. O que me atrapalha o sonho, é sonhar. Quando é apenas uma palavra é só uma ameaça, desejos são incógnitas, tragédias, comédias ou paródias. Apenas um sopro de ansiedade que, quase sempre, se transforma em pesadelo.
O que estraga minha crença, é acreditar, acreditar no que vejo e no que gostaria de ver.
No abismo das manhãs, imagens, sons, gemidos, estruturas de ferro que me prendem ao incognoscível.
De muitos sentimentos é feita esta confusão. Estradas, rios, cachoeiras, mares sol, lua. Tudo quando cabe no mundo cabe nos meus olhos. Só consigo ser simples quando decomponho minha alma nos espelhos partidos. Deixo de lado a minha infância para não manchar a brancura dos véus.
Vamos, escreva, digo à minha mão. Vamos, pense, ordeno ao pensamento. Não posso nunca dizer ao coração – esqueça. Cheio de um sopro de vida toma conta das minhas pulsações e, em confusas batidas, ameaça parar.
O mesmo sorriso que vai já não é o mesmo que vem. O olhar que olha de lá vê o quê? Enquanto este mistério atravessar ruas e pontes continuo a conceber rostos estranhos que vêem e voltam sem trocar a pele. Será que a intenção ultrapassa a idéia?
Minha força está na descrença. O que seria de mim se acreditasse em tudo sem contestar, sem desobedecer? Seria apenas uma alma bem comportada a caminho do céu. Não aprenderia nada. Ganharia asas coloridas para voar do lado de lá. A contestação me entrega a verdade. Fico por aqui mesmo. Quer saber? Duvide. Não da verdade que lhe impõem, mas da sua verdade induzida e aprisionada. Não creio que tenha dito alguma coisa impudente, mas o que eu disse me mantém descrente de minhas irresoluções.
Os rumores do silêncio me amedrontam quando me chamam com a voz do medo, dissimulada no silêncio das assombrações. Descasco a maçã e me desfaço das sementes. A água tem sabor de veneno nestes lábios feridos, ameaçados pela verdade. Minha força está no sofrimento. Sei sofrer. Fingir felicidade.
Quando meu tempo terminar não mais serei a mesma apenas um arremedo da mulher que atravessou a vida na contra mão.
A palavra, seja ela qual for, se transfigura nos labirintos do pensamento – se escrever vadia, troco uma letra e ficará vazia. Se chamo Marta a letra trocada me entregará morta. Se troco a letra do meu medo ele ficará mudo.
Letras infiéis sobre o altar de um sonho convulso nas ondas da concupiscência, palavra cruel que dissimula o desejo.
Escrevo porque falar me cansa.
Se ninguém ler o que escrevo ninguém saberá que existo.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

AS CAMADAS DO TEMPO


Estou com o pensamento desembestado. De repente, as dores do parto. Despenco ladeira abaixo sem governo e sem juízo, em busca da palavra. Às vezes, uma, uma só, deixa-me assim. Será que é mesmo uma, ou o somatório delas, calado e mascarado que me impede de pensar? Está claro que o mal é meu principalmente quando duvido de tudo e penso que acreditar nas pessoas é um risco e no amor é morrer nos enganos.
Sinto-me um ser em desconstrução. Matéria orgânica que se decompõe a cada dia, nas rugas, nas dores, nas mágoas. Matéria que alimenta a natureza, quer seja no mar, na terra, que se desfaça no ar, ou dentro da alma.
Esqueço? Ou não esqueço? Sei lá.
As dúvidas são os caminhos das certezas. Tento ficar em paz até que a morte me separe, ou rimar feito quem faz versos. Na verdade sinto mesmo vontade é de tacar fogo em tudo quanto já escrevi e apagar do pensamento esta mania de falar de tudo sem saber de nada. Já conversei com Deus e disse a ele, Senhor, acho que não escolhi ser eu, assim como Judas não escolheu ser traidor, nem Pedro covarde nem Tomé descrente. Se cada um cumpre um papel, abençoe minha desobediência.

Por que escrevo? Quem sabe? Só sei que a cada sentimento modifico as palavras. Transformo-as em arma ou em flores. Às veze nem reconheço o que digo. Pouco importa se são crônicas, contos, novelas ou romances. Importa sim, que não me cale nunca e esteja sempre insatisfeita. Se alguém gosta do que escreve, deve ter perdido o juízo dentro de alguma palavra. Há muita gente “realizada” por aí. Há até quem se julgue imortal.
Conhecemos tão pouco a profundidade dos nossos semelhantes. Infelizmente não podemos desavessá-los para saber das mazelas que cada um carrega. Assim, ficamos do lado oposto, na leveza do silêncio na fatuidade das palavras, sofrendo de uma insegurança sem ao menos saber quem somos.
Da árvore, comemos o fruto, não sabemos dos males das raízes. Falamos de agressões e violência. Esquecemos, no entanto, de que a pior das agressões é matar na alma as esperanças de alguém.
Meu primeiro mundo foi o das revelações. Um mundo simples onde os dias tinham sabor de festa.
O segundo, foi o das sensações, das descobertas, das coisas proibidas. De um corpo carregado de segundas intenções.
Agora, neste terceiro mundo, fujo todos os dias, feito criança trelosa em busca de um tempo em que a que a felicidade estava ali bem perto, na simplicidade de um pôr de sol, nas serenatas em noites de lua cheia, nos namoros escondidos, na desobediência de ser feliz. Era tudo tão simples e tão fácil. Às vezes penso que mudei de mundo. Já não ouço os sons que encheram de alegria a minha vida. Não mais repicar de sinos nem canto de aves nas goiabeiras, nem o som das Ave-Marias no final das tardes. As camadas do tempo se sobrepuzeram sobre mim e quase não me reconheço.

À noite, um silêncio cansado e poluído se espalha por entre as luzes que imitam o sol.
Sinto falta de uma rara felicidade gravada nos passos da minha inocência. E, de vez em quando, brinco de ser feliz, abro um parêntesis para a saudade.
Imagem da Internet

domingo, 19 de julho de 2009

LIBERDADE AMEAÇADA-

Abri a porta. e vi, assustada, que a liberdade construíra um caminho à minha frente. Livre, pensei. Livre, de quê? A alegria de ser livre é uma alegria estranha, contundente, confusa. Tive medo de não transpor as distâncias. Distâncias indefinidas, momentos que não possuem tamanho nem dimensão alguma. Por falar nelas ou delas, nada sei da que me separa das almas que já tive, dos tempos que vivi, dos momentos que perdi nas encruzilhadas e do mal que me fiz ficando no mesmo lugar à espera de que as tristezas passassem. Elas não passaram, me encontraram no caminho.
Preciso me obrigar a me esquecer de me lembrar. Paradoxo? E ser gente?
Acho que a brincadeira de viver está chegando ao fim. Como todas as brincadeiras, um dia termina.
Não tenho medo do que sai dos olhos. Temo o que neles entra, somando, multiplicando ou dividindo sentimentos. Temo o veneno das idéias, dos pensamentos, que chegam, sentem-se donos de tudo, governam e desgovernavam, enterram-se dentro da alma e, um dia, ressuscitam com nomes diferentes, tão diferentes que chegamos a pensar que inventamos ou descobrimos algo especial. Talvez, por isto, na velhice, Deus nos abençoe com o esquecimento, esta mão que se estende para nos salvar do naufrágio nas lembranças.
Viver, a brincadeira de viver, finda com a realidade de morrer, morrer para nascer e voltar a viver sem saber de nada do que passou. Assim nos diz o Eclesiástes - não há memória do que foi nem do que há de vir. Ninguém volta para dizer como é do outro lado. Assassinados não retornam para denunciar criminosos. Só na imaginação de Shakespeare – rei morto entrega o irmão assassino. Voltar,mesmo, ninguém volta. Morrer é igual a se aposentar, enterra-se o tempo e jamais retornamos ao locar onde vivemos metade das nossas vidas. A morte é a aposentadoria da vida. Sonhos são enganos da imaginação, híbridos no mimetismo das formas e das cores, como as plásticas que mudam apenas a forma do corpo, jamais o conteúdo.

Não quero que voltes. Hoje o espaço é outro. Não pude destruir nada do que deixaste. O silêncio me engana e eu agradeço. Tudo se transformou. As ausências são assim, arrumam e desarrumam a solidão. Um barulhinho insistente de grilos se instalou na minha cabeça e à noite me faz dormir. Quando para, sinto falta.
Tudo isto me pertence é um patrimônio, uma doação que a ´princípio me confundiu mas que agora faz parte de um mundo novo cheio de sustos e de alegrias, de novas possibilidades.
Descubro a minha dualidade, um lado que chora, outro que se conforma. Um que lamenta, outro que agradece, um que aceita outro que se revolta. Saio fechando portas e deixo que se abram apenas aquelas que não me deixem arrependida. Se olho para trás vejo rosas que deixei sem colher, sementes sem plantar. Ai, então, abro novas portas e entendo que o arrependimento só constrói muralhas.
Hoje, pela manhã, encontrei a porta aberta. A porta que me ameaçou a vida inteira com a liberdade.
Afinal, como saber se sou livre se ainda estou aqui?


Imagem retirada do Google

sexta-feira, 3 de julho de 2009

INDECISÃO

Dei alguns passos sem direção. Deveria ir, não sabia para onde. Precisava de um lugar que tivesse o meu cheiro a minha energia. Tudo estava no passado, lugar onde fui feliz.
Os relâmpagos que cortavam o céu cortavam também meus caminhos. Nunca pude me libertar de uma constante sensação de medo. Medo de tudo, de qualquer coisa, até de mim.
Sentia, ainda, o perfume que usara na última noite em que estivera com ele. Ultima noite. Por que chamá-la de última se quando lembrasse seria presente e única e real e verdadeira?
Vi quando ele chorou. O rosto escondido entre as mãos como se quisesse prender a dor tão viva e real como seus sorrisos. Nunca deveria ter lhe contado a verdade. Ele era feliz. Eu, não. Como continuar enganando quem confiava em mim? Quem respeitava os mistérios e os silêncios de uma alma presa às dissimulações?


A verdade é um segredo indecifrável – antes, guardado como um relicário, desacreditada, pois toda ela antes de ser contada veste-se de dúvidas até ser revelada e aceita.
Resisto às decisões do pensamento – só ele manda e comanda em tramas clandestinas. Muitas vezes nem sei o que se passa no reino da imaginação onde me confundo com a felicidade. Emoções me espiam como inimigos em reuniões secretas– decidem minha sorte. Um registro aqui, outro acolá e só sei dos sofrimentos quando se despem das máscaras e revelam a verdade.
Os sentimentos negados se instalam com força de mando exagerada. Não quero saber das coisas pela metade. Quero conhecer tudo, entender tudo. O que não conheço não existe. O que sei do além do horizonte? Nada, nada além de um olhar perdido na imensidão de um mundo preso nas armadilhas dos olhos. Não posso esperar. Medo, muito medo de sentimentos que comandam um batalhão de imagens que mal conheço ou desconheço. Nem sei muita coisa de mim. Engano-me nos sonhos e nas esperanças e nos desejos que não nasceram comigo. O pensamento, o rei, o absoluto, leva tudo em consideração – desconsidera meus desejos, desejos que se confundem com o além do horizonte, templários das guerras e das lutas, batalhas perdidas do lado de cá. Cruzes na estada, certezas, fim do que sei e conheço. Dia após dia, minhas forças desertam, me abandonam depõem as armas e se confessam vencidas – tenho que me enfrentar, mesmo assim como estou, fraca e sem forças e sem desejo de vencer. Sozinha, numa luta desigual, pois há muito me esqueci das batalhas com a verdade, da sua força e poder. Minha alma reverenciou o poder das mentiras, de joelhos dobrados, arrependida. Agora que o pensamento abdicou de mim e reduziu meu território, não há mais campo para a luta, só para a entrega.
O esquecimento assume o poder. Não tenho nada a ver com isto. Simples soldado. cumpro determinações.

Vi quando ele chorou.

A mentira decidiu a meu favor.

domingo, 28 de junho de 2009

ALMA EXPOSTA

Pegou a lâmina de barbear do marido, encostou-a no pulso. Um pequeno corte, nos dois braços e, pronto, tudo resolvido com direito a necrológio, flores e lágrimas. Palavras seriam ditas. Mentiras soluçadas.
Sentiu, com o frio da lâmina sobre a pele, a indiferença, o desprezo, a falta de amor por si mesma. Fez pressão como se fosse cortar. Uma pequena incisão em sentido vertical, não haveria médico que desse jeito. Ouviu passos lá fora. Alguém andava pela casa. Estremeceu só de pensar quem era. Fechou com chave a porta do banheiro. Olhou-se no espelho - irreconhecível. O que fora feito dos cabelos e da pele rosada e macia? Quando perdera o brilho dos olhos? Na sua frente, a alma exposta, maltratada, tatuada em rugas profundas, sobre o rosto murcho. Culpar a quem pelo próprio desamor.

Qual dos pulsos cortaria primeiro? Começaria pelo esquerdo. Imaginava o que se passaria – lamentações convencionais, frases de puro efeito – ah, se ela tivesse falado eu teria entendido. Falsidade, pura falsidade. Pensou nos espaços que deixaria - na mesa, na cama, lugares logo preenchidos ou disfarçados. Estava cansada de não ser vista, amada, não era bem aquela queixa do ninguém me ama ninguém me quer. Não, era uma história antiga muito antiga mesmo, história de abandono e solidão.

A lâmina era nova. A idéia antiga. Pensou no cordão umbilical, preso à única pessoa que a amara. Cortado dera-lhe passagem para a vida. Agora, a lâmina afiada, a levaria de volta. Alguém sentiria sua ausência? E por que se julgar tão importante se nem ao menos se amava?
Arranhou o pulso com a ponta da lâmina. Arrepiou-se com a dor, correu-lhe pelo corpo o veneno da palavra negada, do olhar indiferente de quem deixara de se amar, de quem se fizera de morta antes de morrer. Então, a ira explodiu, explodiu como uma força descomunal vinda do mais profundo do seu desgosto numa revolta sem controle. Em nome de que e de quem, o sacrifício? Nunca!
Passou creme no rosto, batom nos lábios, perfume no corpo. Apagou com a maquilagem o rosto sofredor de todos os dias, Vestiu uma roupa transada da filha, e, de pés descalços, macia e silenciosa, aproximou-se do marido que dormia no sofá. Segurou firme a lâmina afiada. Abaixou-se como se fosse beijá-lo.
Nunca mais ele a olharia com desprezo e indiferença. Nunca mais.



segunda-feira, 22 de junho de 2009

FOLHAS QUEIMADAS

Foi exatamente assim, do jeito que vou lhe contar.
Nunca se entregou por inteiro, nem pude imaginar quanto sofrimento estava preso nas malhas do seu silêncio. Sua alma sempre fugiu de mim. Quando falava, falava pouco, com dificuldade, frases curtas, significativas: sou uma mulher feita de sonhos e de desejos. Antes de terminar, estava cansada, ofegante, como se estivesse voltando de uma corrida. Depois, fechava-se num silêncio que durava horas, dias, meses. Nunca deixou de ser a menina dos meus olhos, nem mesmo quando se escondia nos espelhos à procura do antigo corpo examinando mãos e braços em busca das pegadas do tempo impressas na pele, agora, envelhecida..
Aconteceu assim, não digo de repente porque nem mesmo a morte acontece de repente. Quando chega já estava a caminho.
Algum desgosto? Pode ter sido, penso, não sei. Várias vezes, tentei alcançá-la. Impossível. Entrincheirada nas lembranças, não parecia me ver. E te escutava? Também não sei. Olhava-me com um olhar de quem apenas reage aos sons.
Sonho maldito, excomungado, amortalhado em sorrisos e remorsos, disse-me um dia, no seu cansaço. Lamentou conhecê-la? Não. Como poderia se a amava? E ela, sabia? Sempre soube. Indiferente, se deixou amar.Uma noite, partindo ao meio o seu silêncio, perguntou? Posso ir?Não, eu disse. Calou-se e, por muito tempo, não voltou a falar. Tentei prendê-la ainda, por algum tempo. Precisava entender seus pensamentos, iluminados pela força invasora de uma luz que acendia seus olhos nesses momentos. Precisava devassar seus sentimentos em busca de um sinal que me conduzisse à verdadeira causa dos seus remorsos. E quem lhe contou a verdade? Ela, ela mesma. Como? Nesta carta: Salva-me, nestes momentos obscuros, uma pequena luz que ainda teima em permanecer acesa – a sombra da lamparina que iluminou minha infância e desenhou minha inocência no branco das paredes.
Folheio minha alma e as páginas queimadas pelo tempo ameaçam se desfazer com a dor de mais uma lágrima chorada por lembranças que não terminam de morrer.
Nunca te disse nada. Guardei por tanto tempo um amor que eu deveria ter vivido um grande amor que eu trouxe do passado feito de luxúria e de desejos. Não pude dizer a verdade e, assim vivemos nestes ventos parados, nestas águas turvas e nos caminhos destorcidos das enganações. Agora, apenas a luz da infância permanece acesa, imaculada, mergulhada numa penumbra onde só o passado me parece real. Quero partir.
Nunca te disse nada e nada apagará o amor que não consegui viver. Há sempre uma pergunta.Uma pergunta tão simples que me faço quando os silêncios se digladiam desesperados na confusão das escolhas: Por quê?
Naquele dia eu a deixei partir..


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segunda-feira, 8 de junho de 2009

VIDA ETERNA


Cada vez que seu olhar me acariciava, eu me sentia importante. Ela me amava com uma pureza, uma segurança e um carinho que faziam de mim uma pessoa diferente. Era feita de amor, desse amor- sorriso, de que são feitas as mães.
No dia em que se foi, levou dentro dos olhos a imagem da menina trelosa, da adolescente que ensaiou a vida, da mulher atriz, vivendo seus papéis.
Da parede, caiu o meu retrato. Cacos espalhados pelo chão, multiplicavam imagens destorcidas.
Sem ela, a casa já não era a mesma. Sobre a mesa, panos coloridos que a vi bordar nas noites silenciosas quando sonhava sem dizer com quê, chorava sem se lamentar e adormecia no engano das lembranças.
Com sua ausência, aprendi a solidão.

Adormeço ouvindo sua voz. Presssinto seus passos entre sala e cozinha construíndo nosso amanhecer.
Agora, sei que saudade é uma vida eterna onde as cores não desbotam, as melodias não desafinam, as rosas não murcham nem perdem o frescor os bogaris.

domingo, 17 de maio de 2009

PROFESSOR DE MITOLOGIA



Naquela noite eu estava cansado, muito cansado mesmo. Passara o dia todo dando aulas, falando sem parar, ensinando coisas nas quais nem acredito. Não sei onde fui buscar a idéia maluca de ser professor de mitologia. Talvez por falta de opção.
Deuses, monstros, figuras nascidas de imaginações que precisam acreditar em mitos. Aliás, acho que me deixei influenciar por leituras como O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges.
A exaustão era tanta que me deitei sem ao menos trocar de roupa. Procurei relaxar, me desligar de tudo precisava estar em forma para o dia seguinte.
Na verdade um dia igual aos outros, sem grandes atrativos. Levantei-me. Ao ficar de pé uma dor terrível me impediu de andar. Senti que pisava em mim mesmo, isto é, numa extensão do meu corpo. A dor começava na bunda e se estendia pelas pernas. Passei a mão, um rabo enorme pendia das minhas costas. Meus, Deus, de onde surgira aquela coisa assim tão de repente? Olhei-me no espelho para ver se o resto de mim ainda era o mesmo ou se tinha um olho no meio da testa, serpentes nos cabelos, patas de cavalo. Fui ao banheiro. Junto da saboneteira havia um vidro azul que eu nunca vira antes, nele estava escrito – Desodorante para rabo - e, dentro da caixa, uma escova com os dizeres: “com este produto e o auxílio da escova você terá um rabo limpo e perfumado durante todo o dia”. O banho que tomei não foi grande coisa. Não podia me movimentar com facilidade porque o rabo ensaboado escorregava feito uma coisa viva, e, na verdade, era o que de mais vivo havia em mim. Aquela coisa me atrapalhava os movimentos. Afinal, quando consegui sair do banheiro, fui para a sala tomar café. Sentei-me à mesa. A empregada veio me servir. Não me lembrava de alguma vez ter visto o rabo de Sofia. Aliás, um belo rabo loiro. que ela trazia enrolado no braço. Ficou encabulada ao ver-me fitá-la com tanta insistência. Parecia não se incomodar com o rabo. Agia como se estivesse acostumada, enquanto eu, estranhava os dois. Ao sair da mesa, segui-lhe o exemplo, enrolei o meu no braço. Mesmo assim, de vez em quando, ainda me atrapalhava e me causava alguma dor.
Na rua, pude ver que todos tinham rabo e eram usados das mais variadas formas: enrolados no pescoço, ao redor da cintura, ou como a maioria, no braço. Possuíam várias cores e tamanhos. Variavam de acordo com a idade. Nas crianças eram pequenos, pouco cabeludos. Nas mulheres, muito bem tratados, cheios de enfeites brilhantes, perfumados. Nos velhos, grandes, murchos e sem cor. Afinal, todo mundo tinha rabo.
Na faculdade não parecia haver nada de novo. Quando os alunos começaram a chegar pus-me a observá-los: Josias, um mulato tímido que mal falava, entrou com o rabo entre as penas. Georgina, uma loira alvoroçada que já havia namorado metade dos alunos apareceu saltitante, rodando o rabo como quem roda uma chave na corrente. Horácio, um jovem de alegria duvidosa, antes de sentar jogou o rabo para um lado, sacudiu a cabeleira num trejeito efeminado. Alice, uma loirinha encabulada, em vez de roer as unhas roia a ponta do rabo A grande maioria entrou na classe numa euforia danada, batendo os rabos uns nos outros como se fosse a coisa mais natural do mundo. Já não me preocupava tanto com o meu.
Terminada a aula voltei para casa.
Sentei-me na sala. Liguei o televisor. Verifiquei que todos tinham rabo.
Telefonei para minha noiva. O telefone estava ocupado. Tentei mais algumas vezes, não consegui. Embora um pouco tarde, fui vê-la sem avisar. Estava acostumada com meus horários desencontrados.
Ao me aproximar da casa avistei-a no portão ao lado de um jovem que a segurava pela cintura – beijavam-se. Ela havia enrolado o rabo no pescoço dele, enquanto ele lhe dava carinhosas rabeadas nas nádegas. Aquela visão deu-me, um ódio, um furor, uma raiva que se acumulou todinha no rabo. Parti para eles e passei a golpeá-los com a fúria de um jacaré. Bati, bati e continuei batendo, mesmo quando Sofia me acordou antes que eu quebrasse
a perna na parede.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

CAMINHOS DE LUZ

Quero voltar sempre aos mesmos lugares, com as mesmas saudades, as mesmas lembranças e a teimosia de um sonho que não me deixa em paz. Quero voltar eu, não essa de agora, cheia de baús, de tapetes mágicos e amarguras recentes. Quero ir em busca da minha inocência, da minha alegria barulhenta, dos meus brinquedos enterrados na areia, das minhas bonecas de pano, afogadas nas águas da chuva, da sombra das mangueiras florindo, do cheiro de goiaba madura, dos caminhos de barro e terra que não me levavam a lugar nenhum. Não quero voltar esta de hoje que já não se reconhece nem consegue se ver nos espelhos da sala.
As grandes alegrias se transformam em saudade.
Quero estar sempre voltando. As certezas do presente me crucificam nas angústias do agora.

Quero ver, quero mesmo ver, alguém ser feliz com o que é. A felicidade é o que foi, tudo aquilo que se transformou no era uma vez...
O sorriso que deixou alegria, o beijo que despertou desejos, o abraço que se fez carne e habitou entre nós.
Sombras de sol, passadas miúdas, sorrisos de menina, raios de luar no meio do quintal, ruas estreitas, caminhos escondidos entre sombras e árvores floridas. Sinos de Natal, a melancolia do ângelus, criança adormecida.
Quero ver alguém ser feliz com o que tem. A gente é feliz com o que deseja ter. O sonho imaginado, desejado, tornado real é pesadelo. O bom do sonho é ser sonho e pronto.
Para que tornar realidade o que nos faz feliz?
Não me impeças de voltar nem toques meu coração com as mãos sujas do teu esquecimento
.

domingo, 22 de março de 2009

SEM VOLTA

Salva-me, nestes momentos obscuros, uma pequena luz que ainda teima em permanecer acesa – a sombra da lamparina que iluminou a minha infância e desenhou minha inocência no branco das paredes.
Folheio minha alma e as páginas queimadas pelo tempo ameaçam se desfazer com a dor de mais uma lágrima, chorada por lembranças, que nunca terminam de morrer.
Nunca te disse nada. Guardei por tanto tempo um amor que deveria ter dito, um grande amor feito de pequenas coisas, de sentimentos leves e simples que eu poderia ter transformado em verdade.
Ventos parados, águas turvas, caminhos destorcidos. Só a luz da lamparina permanece acesa, maculada, mergulhada numa penumbra onde a infância me parece irreal.
Nunca te disse nada e nada é tanta coisa...
Quem apagará esta escrita desconhecida que nunca consegui decifrar? Chorar não é resposta, é pergunta. Uma pergunta que me faço quando os silêncios se digladiam desesperados no castigo das esperas.
Sei que não há volta. Infelizmente sei.
Quem acreditará na dor deste silêncio?

quinta-feira, 12 de março de 2009

SER MULHER

Dos sonhos que vivi o mais real foi ser MULHER
Dos realizados o mais forte foi ser MÃE O mais gratificante foi o de poder enxugar lágrimas
Ensinar sorrisos
Abir estradas, direcionar caminhos
E saber parar nos meus limites

domingo, 1 de março de 2009

TELA VAZIA

Vivo um tempo de espera
No princípio era uma idéia e a idéia se fez dor. Um simples pensamento sem endereço, sem sentido, sem destino, transformado em esquecimento.
Pensar, dói. Sorrir dói. Espremer os sentidos colher da vida uma idéia vazia.
E eu nem fiz nada. Apenas pensei diferente. Custou-me caro. Uma prestação de contas muito longa. Nem sei quantas lágrimas chorei, nem quantos gemidos gemi, nem quantas madrugadas frias deixei entrar pela janela. Também não sei quantas vezes voltarei, ainda, pelas mesmas dores.
O pensamento envelheceu e hoje nem eu acredito que amei e fui amada. Cambaleio sobre a insegurança do que me resta viver. Procuro me segurar para não cair sempre.
Lamento a perda de pensamentos que se foram deixando-me na esquina à espera de um vulto que passasse sob a lâmpada dando-me de graça a ilusão da volta. Nunca pude fotografar meus sonhos nem minhas infelicidades, emoldurá-los e pendurá-los nos túneis vazios cavados pelo esquecimento.
Tela em branco, espaços sem riscos nem rabiscos. Linhas tortas, linhas, apenas linhas onde tento me equilibrar.
Caminho, agora, como quem nunca soube e nunca saberá de onde veio, por que veio, e para onde vai.
Dias sobreviverão guardados nas marcas de uma felicidade inventada.
Resta-me, ainda, um minuto de silêncio.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O NOME DA COISA


Acordo com vontade de desligar o mundo, ou, quando nada, desligar o sol. Alguém teve a mesma idéia. Chove. Penso em desligar as nuvens. Chuvas não apagam nem o dia nem a noite nem as marcas do tempo. Caminho para um mundo escuro, seco, sem vento, sem nada.
Estranhos ruídos na minha cabeça perturbam meu juízo. Um remexido, um movimento de ratos no baú, rasgando roendo minhas idéias. Abelhas, formigas, pernilongos nos meus ouvidos, palavras inúteis sem coerência, sem sentido, ruídos que não respeitam sonhos e devassam segredos. Será que começa assim? Lembrei-me de que, antigamente, os velhos caducavam. Faziam coisas estranhas, esqueciam de tudo, não reconheciam nem os próprios filhos. Depois, a caduquice ganhou outro nome - esclerose - logo substituído por outro mais modernoso. Para este ensaio de saída da vida, inventaram um nome próprio, próprio mesmo, nome de gente, com maiúscula e nível universitário - Alzheimer. De qualquer forma uma velhice esclerosada é mais decente do que uma caduquice amalucada ou uma esclerose mal resolvida. Será que mudando o nome da coisa a coisa será diferente?
Quero inventar minha própria demência. A cabeça é minha, o juízo é meu e a velhice me dá o direito de fazer as mesmas esquisitices dos velhos de antigamente. Ou será que velho só serve para ficar nas filas, pagar contas e entrar no ônibus pela porta da frente?
A quem importa a minha idade? Quem padece dela sou eu. Não me avisaram que envelhecer doesse tanto. Ossos desunidos que brigam quando se encontram.
Todos os dias, convenço-me de que é meu aniversário. Num faço quinze anos, no outro, vinte, quando vou me aproximando do agora, volto. E assim, todas as manhãs canto parabéns sem vela e sem bolo, mas com uma velha que dá um bolo na velhice.
Minhas avós viveram uma velhice tranquila, sem medo de rugas, de ossos partidos e sem sorrisos paralíticos e bochechas plastificas.
Outro dia, fui ao enterro de uma conhecida que perdeu boa parte da vida tentando driblar a velhice. No caixão, maquilada, exageradamente, lembrava um kabouki do teatro japonês. A esquisita defunta, com sobrancelhas definitivas, contornos dos lábios exagerados era uma cópia da Emília do Sítio do Pica Pau. Agora, tudo nela era definitivo.
Quando cheguei em casa, a primeira coisa que fiz, foi me olhar no espelho. Olhos empapuçados, bochechas caídas, cabelos brancos aparecendo por cima das orelhas de papafigo e alguns rebeldes, fugindo pelos buracos da venta. O pescoço, uma sanfona prestes a ensaiar um xaxado. Então me perguntei: pra que me enganar por fora se por dentro a caveira continua esburacada?
Fui dormir, conformada de fazer, sem medos e sem cuidados, os meus gloriosos, não sei quantos janeiros, fevereiros e marços, que serão comemorados ano que vem com Missa de Ação de Graças, parabéns pra você e muita conversa mole do tipo: nem parece, ainda está lúcida, ainda está equilibrada, ainda está tão jovem. Nada me irrita mais do que esse ainda.
Espero que não enterrem tão cedo uma velhinha tão precoce.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

SEM SONHOS


Todas as tardes, sentada na rede, esperava por ele na enganação dos sonhos. Vestido engomado, cheirava a alfazema. No coração a esperança de vê-lo chegar, abraçá-la, sentar-se ao seu lado. Na ansiedade da espera, sonhava, enquanto o sol se mudava devagar e frio para detrás da serra. Os passarinhos, nos galhos das goiabeiras, afinavam os trinados para a manhã seguinte.
Há muito, entendera que o engano amortalhava-lhe sonhos e desejos, na indiferença que chegava a passos largos sem ao menos olhar a mulher viva, sentada na rede à sua espera.
Aos poucos, deu-se contas da inutilidade de ser a esposa, a mulher de casa a que não sabia de nada, a que não podia rir ou sair sozinha ou mesmo, falar e ser ouvida. A mulher parideira que servia ao marido.
Queria ser diferente da mãe e da avó, prisioneiras de preconceitos e tabus, presas de sonhos que só levavam à tristeza. As coisas que aprendera não lhe serviam de nada. Vivia das experiências de mulheres anuladas, sem vontade e sem desejos. Não era assim que queria ser. Ao casar pensara em mudanças. Foi seu primeiro engano, cadeias erguiam-se, dia-a-dia, ao seu redor.
Enquanto esperava, via passar no outro lado da rua as outras mulheres, as de vida fácil, de vida alegre, as sem donos e sem mandamentos. Sempre rindo. Flores nos cabelos, roupas coloridas. Falavam alto para despertar a atenção dos homens e a inveja das surdas, das mudas das sem voz e sem vez, das que choravam e esperavam nos finais de tarde, uma palavra, um sorriso, um sinal de vida. Seria ela mulher da morte e da tristeza?
Tomou uma decisão. Mudaria o ritual da espera. Vestiu-se de festa, cabelos soltos, neles prendeu uma rosa. Um alvoroço, um calor, percorreu-lhe o corpo misturado aos últimos raios de sol que entravam pela janela. O cheiro do entardecer invadia a casa, misturando-se ao da flor que lhe enfeitava os cabelos.
Trêmula de espera sentou-se na rede.
O portão, de dobradiças enferrujadas, riu um riso espremido quando ele chegou.
Diante da rede, fitou-a com um olhar enfurecido e trovejou, mulher que se presa não bota flor nos cabelos. Quer ser igual às raparigas da rua? Quer? Arrebatou o bogari esmagou-o sob os pés. Dentro dela a revolta explodiu:
Quem disse que eu quero ser mulher que se presa? Quero é ser alegre, uma mulher feliz, desejada e amada. Acabar com os fingimentos do meu próprio corpo. Cansei de ser de casa, mulher do dia, rainha do lar, rainha sem trono, submissa insatisfeita, mal vestida, mal amada, cheia de angústias e desejos reprimidos. Vou encher de flores os cabelos abrir a porta e juntar-me a elas.

Sentada na rede, chorou pelos sonhos esmagados. Chorou pela covardia que a impedira de falar.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

CORTINAS

Caminhei pela rua, subi a calçada e parei diante dela. Ainda a mesma, pintada de branco, porta de postigos articulados. Nas janelas cortinas de crochê. Aquela seria sempre a minha casa, a minha velha casa.
Quem sente saudade não se pertence anula a vontade muda de rumo. Em cada pedaço daquelas paredes havia uma história que nascera e crescera comigo.
A casa me atraia como um ímã fortemente magnetizado. Entrei. Um sol de outono iluminava a sala. Não precisava de grande esforço para lembrar de como tudo era antes: as cadeiras de madeira escura forradas com um tecido adamascado. Nos espaldares e nos braços flores e folhas entalhadas na própria madeira. Os almofadões de veludo marrom, com ramos de margaridas desenhadas em fios dourados e com acabamento de berloques amarelos. No meio da sala um centro guarnecido com um pano muito alvo, de labirinto, que se destacava na madeira escura. Na entrada, o porta-chapéus, que servia mais às bengalas, guarda-chuvas e ao guarda-pó que meu pai usava nas viagens para proteger a roupa branca. Olhando para o pequeno móvel tão importante com seus ganchos prateados e espelho bisotado, lembrei de um fato que marcou minha infância. Na parte de baixo minha mãe colocara uma jarra de opalina onde um ramo de miosótis, em relevo, dava um toque muito especial à brancura translúcida do vaso. Um dia, correndo atrás do gato, tentei pegá-lo e, de um pulo, ele bateu na jarra que num piscar de olhos se transformou em cacos. Medrosa e chorando, escondi-me atrás do sofá. Pelos soluços minha mãe me localizou. – Por que está chorando, menina? Com dificuldade respondi – Porque não tenho um tio.
Uma das falhas da minha infância foi não ter um tio. Invejava as meninas da minha idade que diziam: hoje escapei de apanhar porque meu tio não deixou. Meu tio, hoje me levou à matinê. Sempre ouvi histórias maravilhosas de tios bonzinhos que protegiam sobrinhos trelosos. Fiquei com raiva do gato que enquanto eu assumia a culpa sozinha ele, encarapitado no muro, insultava o cachorro da vizinha.

Como uma sombra movida pelo sol fui mudando, lentamente, de lugar. Num recanto da sala de jantar a máquina Singer, ainda de pedal, companheira da minha mãe que nela alinhava as noites de solidão e silêncio. Muitas vezes, quando terminava os afazeres de casa sentava-se conosco nos degraus da cozinha e falava da saudade que sentia e dos sonhos que sonhara embaixo dos cafezais junto com as irmãs, idealizava um futuro onde todas terminavam felizes para sempre.
Durante muito tempo fiquei olhando as cadeiras vazias. “Desce daí, menina, as cadeiras são para as visitas”. Antes daquelas pomposas poltronas toda a mobília da sala se resumia a um sofá de palhinha e quatro cadeiras.
As lembranças constroem os caminhos perpétuos do passado.
O vento balançava as cortinas de crochê e renda. Por que tão poucas portas? Agora, com elas, as pessoas se isolam cada vez mais. No lugar das cortinas tecidas, em finíssimo crochê ou em belos trançados de filé, trabalho quase tão antigo quanto a humanidade, colocaram portas, grades, cadeados e silêncio.
Na sala, um quarto grande onde dormiam meus pais. No corredor, vários de ambos os lados - o da minha avó, os das crianças e um pequeno onde havia um santuário - o quarto dos santos.
Na sala de jantar, uma rede estendida – onde minha mãe ninava os filhos – uma cozinha grande, fogão de barro, um depósito de carvão ao lado, a porta dividida em duas, a escadaria que dava para o quintal.
Embaixo, no sótão, os trastes velhos amontoados, cobertos de poeira. Os esqueletos das cadeiras de vime, um berço desmontado, vários papéis roídos pelas traças. A cadeira de balanço que fora do meu avô, pendia de um lado como um velho capenga. Remexi numas velhas caixas e encontrei bruxas de pano, úmidas e mofadas e um bonequinho de corda que engatinhava. Para a época era uma grande novidade. Deixou de engatinhar no dia em que tentei consertar-lhe as pernas que eram dobrada. Quebrei as duas.
Começou a chover. Senti frio, o cheiro da terra, dos manguitos verdes e das goiabas maduras. Lembrei da menina que fugia de casa para roubar uvas no parreiral da vizinha.
Saí. Fechei a porta. De longe pensei ver nas janelas as cortinas de crochê sacudidas pelo vento.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

A DROGA


Encontrei a porta aberta. Entrei na minha casa como se fosse uma estranha. Dali saíra há pouco tempo, um tempo importante, afinal, de minutos são feitos os séculos.
Expulsa do paraíso, do útero, da infância, da adolescência, presa nos caminhos das fugas.

O silêncio da porta aberta sugou-me como uma folha seca.

Debruçado na janela, ele não se voltou. Continuou impassível, mesmo quando eu disse - Oi, voltei. Não sei se não ouviu, ou fez que não ouviu, ou, se na verdade, não ouviu mesmo. Fora sempre assim.
-Precisamos conversar, insisti. Voltou-se devagar com gestos leves e sinuosos feito uma serpente se enroscando em si mesma. Parecia não me enxergar. Para sofrer menos, acreditei que me via. Na verdade, nem me via nem me ouvia e eu, que acreditava na felicidade, pensei que ele, um dia, habitaria meu mundo. Seu amor era uma loucura. Amava-me com as mãos com os lábios, com o abraço, com fúria. Não sabia falar. Sempre esperei pela palavra, uma palavra apenas. Meu corpo era um objeto onde injetava a droga, deixando um ranço de vício e dependência. Aquele fazer amor me queimava devagar e lentamente como um fogo subterrâneo.

Precisava fugir daquele que me amava com as mãos, com os lábios, com o abraço apertado, me sufocando como se me matasse e sofrendo como se morresse.
- Preciso falar, insisti.
A vontade de dizer por que viera, fazia-me esquecer da força do silêncio que me expulsara.

Eu nada sabia dele, da sua alma, dos seus sonhos. Nas horas em que ficávamos juntos, esperava a palavra que me redimisse. Apenas o silêncio nas manhãs em que acordávamos feito dois estranhos, nas noites em que anoitecíamos nos braços um do outro viciando o corpo com a droga cada vez com mais urgência.
Precisava daquele amor que me amava com os olhos com as mãos, com o abraço, de corpo inteiro.
Virou-se novamente para a janela, me aproximei.
A porta ainda aberta continuava chamando, esperando que eu voltasse oferecendo uma esperança falida.

Fui ao seu encontro.

Dependente precisava mais do que nunca daquela droga de amor.

domingo, 30 de novembro de 2008

MUDANÇAS

Nunca sei como viverei a cada dia. Todas as manhãs repito-me e faço sempre as mesmas coisas: levanto, forro a cama, guardo os travesseiros, vou ao banheiro, leio o jornal, tomo café. O tédio me faz pensar que os dias são iguais. Para não ver o mundo repetido fecho os olhos. Não posso enterrá-los na areia, feito o avestruz.
Ameaçada pela monotonia, chamo o marceneiro. Portas e prateleiras me fascinam, são mistérios que minha curiosidade não consegue explicar e mesmo se existisse alguma explicação não mudaria nada. Gavetas e portas, portas e janelas. Possibilidades que podem esconder e revelar segredos até dos dias perdidos. Os óculos, o celular, os chinelos, os cadernos, a carteira deveriam ter alarme e controle remoto para acabar com a cumplicidade das coisas que se escondem.
Arrumo os livros. Num dia pela ordem alfabética, no outro pelo assunto alguns pela nacionalidade dos autores. Logo logo inverto tudo.
Vivo com os sentidos de plantão. Amo o cheiro da terra molhada quando rego as plantas. Cultivo roseiras porque sou teimosa, elas são ariscas, arengueiras e alimentam formigas. De vez em quando me beliscam. Passo a ignorá-las, faço mudanças radicais – nos canteiros, nos jarros planto novas mudas, troco outras. Faço isto para não ver meu jardim transformado numa fotografia antiga.
E os cadernos? Ah! Estes são verdadeiros atestados de loucura. Em algumas páginas, anotações para um ensaio que comecei nem lembro quando. Em outras, rabiscos feitos pelos filhos, linhas inteiras com um O quadrado, um A de pernas tortas, o P, assoando o nariz, além de desenhos toscos de animais, casas, plantas, o pai e a mãe de mãos dadas arrastando um menino barrigudo, uma casa cheia de flores brotando das paredes, um número na frente e, um bando de passarinhos voando nas nuvens amarelas onde o sol é maior do que a casa e coabita com uma lua anêmica por detrás da chaminé. Morro de rir. Será que já fui assim? Nas páginas de trás, anotações aleatórias: ketchup, bolacha, fósforos. Estas coisas não me deixam esquecer de que sou gente.
Em meio a esta confusão envelheço cercada de móveis, quadros, e livros e me aposento todos os dias. Aborrece-me olhar e ver as coisas sempre no mesmo lugar. Parecem crianças de castigo. Tudo na vida tem princípio meio e fim, até as histórias mal contadas. A cadeira de balanço, por exemplo, já foi árvore, nela, certamente, pássaros fizeram ninhos. Pode até ter dato frutos. Quem sabe? Balanço pra lá e pra cá para que ela se lembre do vento.
O retrato na parede prende a família. O pai, a mãe, os filhos, não são acadêmicos, mas são imortais. Gente de retrato nem cresce nem morre. O ar do homem-dono, o senhor, o todo poderoso. Sorri como quem viu passarinho verde. A mulher, desconfiada e barriguda, não viu foi nada. Imaginem se tivesse visto.
A roupa da primeira comunhão pendurada no cabide de uma infância enganada. A idéia de habitá-lo sempre me assustou. A toalha pendurada na janela, o ventilador ciranda, cirandinha, na mesa, livros, cadernos, o computador. Pensamentos presos, pensamentos soltos. Ventos de agosto ainda soprarão.
Silêncio. O gato caiu do telhado.
Vivo numa floresta camuflada: a mesa, a cadeira, o guarda-roupa, o lápis, a estatueta, as molduras, dos retratos. Na cesta de costura o algodão dos campos.
Nem sei se quero fazer alguma coisa presente. Não consigo, quando começo já é futuro quando termino já é passado. Na verdade o presente é apenas um suspiro.
O tempo manda, manda nos pensamentos, na vida, na pele, nos cabelos, na altura, nas imagens dentro dos olhos. Coloca armadilhas nos caminhos. Faz de mim o seu relógio. Enlouquece os meus ponteiros. Daqui a pouco já serei outra de mim, a sombra que acompanha os minutos, os segundos. O pêndulo que balançou ontem balança hoje, balançara amanhã. Nas frações do tempo que roda o mundo, a alma balança entre a dor e a ilusão. Tropeço caio e ele passa sobre o meu cadáver.
De manhã acordo. A vida foi prorrogada, jogarei ainda um segundo tempo.
Cansada de ter juízo me equilibro nas idéias. Há uma cumplicidade nas coisas esquecidas.
Penso que sou dona de mim e logo descubro que doido não sofre, quem sofre é o dono do doido.
Se alguém quiser saber não me pergunte porque também nada sei.
Quando sofremos por alguém plantamos um coração no outro.
O silêncio mastiga-me os pensamentos. Desligo as idéias.
Vou ali e volto já.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

REVOLTA


H
oje amanheci trancada a sete chaves. Não tenho sequer uma senha para afastar a pedra da entrada. Abre-te Sésamo! O mundo reage, se fecha. Nem sei se quero realmente encontrar alguma forma de sair. Já entrei aqui em fuga. Tento me esconder de um mundo que já não me encanta. Fugir desses rostos pré-fabricadas com sorrisos presos no limites do nada, no contorno de lábios reciclados que tentam esconder a história de quem há muito já está no passado.
Estou aqui de volta de uma ida onde encontrei um céu azul, tão limpo e tão brilhante como uma folha de papel em branco. Pensei em escrever uma nova história naquele deserto azul. Senti como se velhos textos tivessem sido apagados, deixando espaço à espera de novas mentiras. Enquanto penso, o céu tão limpo e brilhante parece rir da petulância de quem quer contar histórias prescritas. Com que alma hei de colorir este céu?
Sinal aberto. Vou em frente. Ou para cima, ou para baixo? Nem sei.
Nunca pensei tornar-me hóspede na minha casa nem visitante na minha aldeia. Com que tonalidades enfeitarei este céu que jamais será o mesmo dos meus antigos caminhos de poeira e fumaça.
Presa a sete chaves isolada de mim. Da poeira das idas e vindas, das paradas bruscas. Fumaça da incineração de sonhos no calor imensurável de uma tristeza sem razão.
O que me entristece são as alegrias passadas, cicatrizes talvez mais doloridas do que as das tristezas de agora. Ter sido alegre e não ser mais é o começo de uma morte anunciada.
Lá em cima o encantamento de um céu azul, tão azul me dá uma agonia no juízo. Espero pelas idéias.
A menina acorda, insinua molecagens. Não posso deixar aquele azul atrevido, continuar me agredindo. Picho o céu com a fúria de um pichador de paredes.
Os anjos riem e apagam, com capuchos de nuvens, as marcas da minha revolta.
Acho que aprendi os mistérios do céu.

domingo, 2 de novembro de 2008

POR QUE RIR?

Quando escrevo textos humorísticos, é para desativar uma tristeza crônica da qual nunca falo. Faço do riso um escudo contra as dores da vida. Isto, porque, enquanto rio ou faço rir, nunca estou só. A dor, provoca o isolamento e raramente conseguimos comunicá-la.
Henry Bérgson afirma que a comicidade é dirigida à inteligência pura uma inteligência que não funciona isoladamente ela tem que estar em contato com outras. Quem ainda não experimentou a sensação desagradável de assistir sozinho a uma comédia? O riso só faz sentido quando compartilhado. Promove a comunicação. É um sentimento facilmente dividido enquanto as queixas e as lamúrias repetidas tornam-se cansativas e nos distanciam uns dos outros..
As grandes dores são mudas. O sofrimento contado com, freqüência, torna-se banal. Do riso a gente precisa. Mesmo as pessoas mais sérias e casmurras não são imunes a ele. Uma boa anedota é contada e repetida inúmeras vezes. Não conheço reunião onde as pessoas se juntem para chorar, nem mesmo nos velórios onde há até quem conte piadas. Eu mesma, durante um enterro fiz o melô do defunto: eu não vou vão me levando...
As coisas que fazem rir são simples. Os pessimistas deixam, por onde passam, uma onda de tristeza e melancolia.
Quando Aristóteles afirmou ser o riso a arte do feio, não quis com isto dizer que o ato de fazer rir fosse feio e sim que ninguém ri do belo. Rimos do cômico, do ridículo, do grotesco, enfim do feio. Uma pessoa que cai, involuntariamente, provoca o riso imediato. Deixar escapar um pum? Nem pensar. Dos animais só rimos quando apresentam alguma verossimilhança com o ser humano. Rimos também do ser humano que se assemelha a um animal.
Nosso propósito é mostrar que se pode fazer rir sem apelar para o palavrão nem para as misérias alheias. Às vezes, um simples trocadilho ou o emprego de uma palavra com duplo sentido são suficientes para tornar humorística uma cena do cotidiano.
A presença de espírito, a observação, a capacidade de captar momentos engraçados, enchem o nosso anedotário de histórias bem contadas e inteligentes. E nisto, o brasileiro é mestre. Não é preciso ser doutor em alguma coisa para ter o dom de fazer rir. Haja vista a literatura de cordel, elaborada por pessoas simples, às vezes analfabetas, é uma fonte inesgotável de situações pitorescas
extremamente engraçadas.
Nas minhas experiências do dia a dia cheguei à conclusão de que a vida nos dá os elementos de que necessitamos para criar o bom o ruim o triste o alegre. Optei pelo alegre e pelo triste. Das observações do primeiro momento escrevi dois livros. A Maldição do Serviço Doméstico e o Deixe de Ser Besta. Pretendo escrever o Deixe de ser Doido. Acho que já estou com a semente na mão.
A velhice tem suas alegrias, dormir, por exemplo, é uma delas e acordar viva é outra. Sempre aconselho às amigas, quando abrirem os olhos, pela manhã, mesmo sentido alguma dor, riam, riam, gargalhem, a dor à esta altura é um sinal de vida. No dia em que acordarem, sem sentir nada, os filhos darão a notícia: mamãe morreu.
Aos jovens, recomendo, brinquem, dancem, namorem, aproveitem a vida. O que sobrar levem para o médico, de preferência o geriatra que trata do velho para ele morrer com saúde.
Quando uma pessoa, de certa idade afirma que se sente com 18 anos, pode internar, é débil mental. Outras dizem, cheias de empáfia: não me troco por uma jovem de quinze anos, ora, eu me troco, mas não acho quem queira.
De manhã olho-me no espelho. Acho-me ótima, a pele boa, penso até que sou bonita, a ilusão dura pouco. Ponho os óculos, pense numa coisinha feia.

A nossa língua portuguesa é cheia de armadilhas. Por exemplo:
Se a comida frita é fritura, por que a assada não é assadura, se quem anda no mar é marujo por que quem anda no ar não é araújo, se um verso pequeno é versículo por que um texto pequeno não é testículo, por que uma tese grande não é uma tesão?
Extrair da vida o que ela tem de melhor e aproveitar ocasiões para rir é uma das melhores táticas para se viver mais ou menos bem. Rir de si mesmo, é um barato, tira o prazer de outro rir primeiro. Quem quiser rir de mim, fique à vontade.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

HABEAS ALMA

Senhor,
venho humildemente
solicitar liberação para minh'alma
presa, indevidamente,
pela saudade

domingo, 12 de outubro de 2008

CAMINHOS DO PENSAMENTO

Nos relógios, sombreados de mistérios, as sombras da tarde escorregam noite a fora. No fundo do corredor o retrato da tia carola, rosário nas mãos, penso que me vê com sua sabedoria esfumaçada por uma velhice esquecida da infância e dos sorrisos da menina-moça. Está ali como quem escapou do de lá para o mundo de cá. A maldade do tempo apagou sonhos, pintou sombras, decompôs lembranças nos sorriso cheios de dentes e de soluços.
A ventania desgovernada, anda por aí.
Penso.
Penso que sou nuvem. Incorporo-me ao desmantelo do tempo. Sinto-me como as folhas secas das palmeiras, seguro nas mãos do vento.
Tento meditar. Não posso. Um tumulto estranho se enovela nas minhas entranhas. Tenho paciência. A fúria de uma onda se esbagaça na areia. Será este o caminho? Já não sei calcular distâncias, nem vencê-las. O pensamento alonga ou encurta as estradas. Momento de intensa confusão, vejo, ouço, sinto, toco, penso e imagino. Comando sempre ativado.
Espero que anoiteça. De repente as idéias tentam se emancipar num grito de liberdade. Criam força e autonomia. Não sei por que, lembro de Van Gog pintando girassóis num vendaval de cores. O amarelo anarquista, bandoleiro, halos de luz numa radioscopia de sorrisos melancólicos, movimentos autômatos, a morte por modelo.
Então, ouço.
Ouço nos coros das catedrais vozes misturadas ao canto monótono dos pardais e aos toques bem comportados dos sinos. Cantos Gregorianos tentam traduzir a tristeza para a linguagem da solidão, uma solidão que não se traduz, nem se explica. Escuto à beira dos túmulos. Invento vozes. Falo sozinha. O prazer de me ouvir me angustia.
A imaginação ativada mistura tempo e distância, e de repente sinto, sinto que sou um Chaplin sem cartola nem fraque. Caricatura, apenas.
Caminhos de pedra. Todos eles. Curtos, ásperos, eternos.
Vejo, vejo pecados onde não há. Luxúria? Liberdade da imaginação afoita.
Lembrar, lembrar, depois esquecer. O que realmente vale a pena?
Agora, minha liberdade controlada ensina-me a amar o meu cansaço. Ensina-me a pensar. Lembro da tristeza de Van Gog que o levou à loucura à morte e à mutilação.
Ouço o barulho das palmeiras, do vento, e da noite. Esqueço. Nem sei o que aconteceu primeiro. Não, não é o agora de mim que me preocupa, é o depois. É o caminho de casa, abrir portas e janelas, arrumar gavetas, deitar, dormir ter pesadelos. Tudo não passa de assombrações que criamos para ter certeza de que estamos vivos. Assombrações que se escondem dentro dos sonhos alucinados, dos olhos medrosos, filhos da escuridão. Foi quando pensei em furá-los. Ficaria com o pensamento vazado? Perco-me em caminhos atravessados, uns dentro dos outros.

Não tenho relógio para contar meu tempo. Faço as contas nos dedos, multiplico as mãos para contar quantos destinos tenho. Quanto tempo ainda me resta para ouvir, pensar, sentir, lembrar, esquecer.

Imagino...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

ERA UMA VEZ....

Há muito perdi a confiança nos sonhos assim como se perde a fé num traidor. Quando apelo para eles é em busca de ajuda para me libertar de mim e partir num vôo solo, livre. Já não consigo fazer este exercício. Os loucos o fazem sem esforço algum.
A ausência do irreal deixa-me derrotada, sem forças, impotente. É uma morte súbita.
As idéias me dão seu derradeiro suspiro.
Queria que minha vida fosse arquivada ao lado de árvores e rios, onde o murmúrio dos ventos e o silêncio das madrugadas me deixassem adormecer em paz.
Não posso falar do que não sinto. Não posso falar do que não vejo. Imaginar? Como, se não consigo sonhar? Espero que um dia toda esta inércia que me amargura nos momentos de reflexão, devolva-me a capacidade de encontrar os caminhos de antes.
Não, não quero a solidão. Também não quero chorar. Preciso apenas imaginar coisas leves e breves para poder esperar, sem sofrimento, a visita de algum sonho vadio. Se demorar, minha alma se desmontará como pétalas de flores murchas. Saudade e solidão são jogos marcados sem vencedor. Vencer é liberdade. Liberdade é dor quando não temos para onde ir.
Não posso deixar de pensar sem esmagar os pensamentos entre o passado e o futuro. Com desespero e ansiedade deixo-me prender entre eles. Assim, alimento a teimosia da espera.
A sanidade me ameaça com pensamentos bem comportados.
Preciso partir. Para onde, não sei.
Começarei, agora mesmo, uma outra história: era uma vez.
Era uma vez... um sonho...

sábado, 20 de setembro de 2008

NÃO FECHES A PORTA


Não, não adianta fechar a porta. Estarei sempre do outro lado à espera do teu sorriso. Não quero perturbar um silêncio que não me pertence. O meu, está cheio de ti, das tuas alegrias, tristezas voltas e revoltas.
Se num dia me abraças, no outro me prendes atrás de uma porta.
Não quero ver no teu rosto esta máscara que te transforma num ser estranho e amargurado. Por que fazes isto contigo mesma? As portas que fechas, apagam o teu sorriso. Diante delas tenho apenas medo.
Medo de saber que estás do outro lado do sol e do vento, trocando a suavidade de um Noturno de Chopin, pelos gemido dolorosos de dobradiças enferrujadas.
Tenho medo de saber que esmagas com tua indiferença, um amor que te pertence e que agoniza a cada porta fechada.
Ninguém é dono do mundo nem dos sentimentos alheios. Precisas aprender a compreender e perdoar.
Não demores, muito. Abre esta porta. Livra-te dos rancores e das dores que não podes curar sozinha nas noites longas, nas madrugadas vazias.
Amanhã, quando avistarmos o sol, já não sereremos as mesmas.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

TORRE DE PAPEL

Não é no silêncio que o homem morre, é na inutilidade da palavra vazia. Na confusão dos sons que poluem um mundo onde ninguém se entende, torre de papel, de letras e traços, idéias, sonhos, pensamentos soprados pelo bem, pelo mal. Babel inconclusa, tijolos e argamassa, carnes e ossos espalhados na poeira fina, mistérios de areias movediças. Pensamentos profundos, traiçoeiros, misteriosos, moldados no silêncio do começo, aquele que se perdeu na boca de quem só queria cantar.
Sofrimentos divididos. Universo em demolição. Jamais concluído. Aranhas estendem fios, aprisionam sombras e sonhos no medo que pinta de cinza as tardes sem sol.
As tristezas são minhas, são tuas, do mundo. Mundo encantado em prosa e verso.
Gostaria mesmo de parar de pensar. Quando o silêncio me ameaça e me esconde dentro de mim, não consigo controlar a inconstância dos sentimentos.

Às vezes penso que sou. O quê? Sempre pensamos hoje que somos algo mais do que fomos ontem e menos do que seremos amanhã. Todos os dias inventamos uma felicidade nova para pensar que somos felizes.
Tateamos no escuro à procura de luz. Quando a encontramos fechamos os olhos magoados pela claridade. Dos felizes sabemos muito, dos que sofrem e choram nada sabemos.
Hoje, não estou mesmo a fim de escrever, quero fugir desta torre de papel que me aprisiona. Fingir que penso, neste silêncio de chumbo. Acho que é o demônio querendo me emprestar as suas asas. Se for, que Deus o proteja de mim.
Não estou para lembrar dores nem sofrimentos nem meus nem teus, nem do mundo.

Com este sol que entra pela janela queria mesmo era não fazer nada.Com esta luz que invade a sala gostaria de iluminar até dezembro todas as manhãs.

O cheiro das plantas e das flores flutua na fumaça da minha xícara de café enquanto no peito um coração cansando ameaça parar.

Torre de Babel inacabada. Como terminá-la com dores tão diferentes? E as cores?
Hoje não quero escrever nem quero pensar nem quero sofrer.

Peguei uma caneta falsa que me amordaçou numa torre de papel.

domingo, 31 de agosto de 2008

´REFÉM DA SAUDADE

O pensamento, de vez em quando, pega-me distraída, seqüestra-me e leva-me para trás em busca das antigas portas, das casas e dos quintais onde vivi meu primeiro tempo. Ali ficou a doçura das lembranças. Lembranças que nem sempre são completas. Dos quartos, não recordo com nitidez. Será porque já chegava lá dormindo ou tonta de sono? Na verdade, dormir significava parar e parar era o mesmo que morrer.
Como esquecer da bagunça que fazíamos pulando nos lastros das camas de arame e jogando uns nos outros os travesseiros de lã de barriguda que terminavam com as tripas espalhadas pelo chão? A alergia ainda não havia nascido e não dávamos um espirro sequer, apesar de mergulhados, até os olhos, nos capuchos da lá amarelada. Na cidade havia apenas um médico, espécie de pajé, cujas orientações eram seguidas à risca. Os remédios eram simples. Ainda não nos envenenavam com as penicilinas, as sulfas e os antiinflamatórios. Injeções de bismuto curavam crises de garganta. O 914, em forma de xarope ou injetável, era uma panacéia. Às crianças não falta apetite, A Emulsão de Scott resolvia o problema. Ainda hoje não gosto de peixe só de lembrar da figura do homem no rótulo carregando um nas costas maior do que ele. Curavam-se gripes e resfriados com chás e escalda-pés. As tosses com lambedores e Grindélia de Oliveira Júnior. As prisões de ventre não resistiam ao Leite de Magnésia e, as diarréias, aos chás de folhas de goiabeira ou de pitanga.
Diante da bagunça que fazíamos nos quartos, minha mãe ficava impassível. Nunca perdia a calma nem a paciência. Andava meio morta pelo meio da casa. Pouco reclamava e não se queixava nunca. Entrava no quarto limpava tudo, arrumava as camas e nos esquecia no sono. Era uma criatura leve e triste. Dormia numa cama grande e macia. Macio também era seu colo. Pensava que ela era triste porque tinha que dormir com meu pai num quarto escuro e sem janelas. Eu ficava triste só de pensar.
Não recordo de que cor eram as paredes nem de como era o piso dos quartos. Se havia móveis, não sei, nem quadros, cortinas ou lâmpadas. Nas minhas lembranças brilham apenas lamparinas na mesa do santuário e o vulto da minha mãe rezando. As sombras espalhadas pelas paredes me distraíam das rezas. Jamais esqueci do calor do seu colo nem das bonecas e das cestinhas de lata que ela trazia da feira, dos cavalinhos de barro, dos coquinhos catolé, maduros, que a gente quebrava para comer o miolo e dos secos enfiados num cordão, feito um rosário, que pendurávamos no pescoço para comer durane as aulas. A professora, de vez em quando, confiscava alguns e nunca os devolvia. Ela também gostava de coco seco.
Um dia, cresci, abri os olhos num quarto com janela e uma jardineira onde plantei verbenas e gerânios. A porta com chave dava-me direito a ter sonhos e segredos. Já não me escondia no fundo do quintal nem nos galhos das árvores para pensar meninices. Agora, tinha um amigo, um caderno onde copiava poesias, pensamentos, frases românticas tiradas de livros e jornais. Ali plantei os sonhos de uma alma que começava a brotar.
Um dia, perdi o caderno, os sonhos, nunca.

Vaidosa, queria ser bonita e elegante. Inspirava-se nas fotos de artistas de cinema retiradas das caixas dos sabonetes Lever e Eucalol. Recortava figuras das revistas Fon Fon e Vida Doméstica. Copíava os cabelos de Verônica Lake, e quando pude usar batom pintei os lábios de vermelho como Joan Crawford.

Foi assim, que me tornei refém das lembranças.
Hoje, meu verdadeiro mundo está na iberdade e na claridade das manhãs.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

FEITIÇO















Preso no espelho o olhar enfeitiçado
Por mil demônios, neste calabouço
Mantém o meu sorriso acorrentado
Às profundezas deste imenso poço

Fere-me os olhos a peçonha fria
Dos basiliscos e das centopéias
Torna-me estéril, deixa-me vazia
Devora-me as entranhas das idéias

Pela vida enganada com a certeza
De que esta prisão não terá fim
Enquanto a mágoa, a dor e a tristeza
Digerem ideais dentro de mim.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008


UM DOMINGO SEM COR


Esta tarde que não é de janeiro, nem de setembro, nem de tempo algum, é a tarde de um domingo surdo, mudo, cego, silencioso e triste. Lá fora, o barulho do vento ressoa como batidas de um tambor nos ruídos terminais de um coração agonizante.
Nem chuva, nem sol, nem frio nem quente. Apenas domingo, um túnel infinito que me transforma em sombra.
Tudo é silêncio neste dia estranho. Não sei de onde vem esta tristeza pesada, estas nuvens escuras este som distante de sinos se esvaindo num perfume sutil de resedá.
Sinto saudade, saudade de mim, dos olhos que viram amanhecer na serra, das nuvens brancas de frieza e névoa, cobrindo as árvores nas manhãs de abril.
Sinto saudade de mim, do vigor do corpo, dos passos ligeiros a procurar caminhos. Das mãos inquietas a traçar roteiros, dos lábios virgens no primeiro beijo.
Sinto saudade de mim nas noites quentes na varanda aberta, lua nascendo sobre os pés de oiti e das manhãs de outono quando o sol chegava como um doce amante aquecendo os lençóis da minha cama.
Espero que a a madrugada afugente este domingo amargo que fugirá como um morcego cego.
Não posso adormecer sem sufocar minha alma no pesadelo das lembranças. Finjo que não me conheço para não sofrer.

Procuro adormecer na melancolia desta tarde sem cor.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A MENINA E AS ESTRELAS - Djanira

Abri a janela, vi a estrela, a primeira que conheci, numa brincadeira de esconde-esconde, por detrás da torre da Igreja. Fomos crianças juntas.
Nem precisava anoitecer bastava o dia se esconder atrás da serra e ela aparecia como se tivesse fugido para brincar no firmamento, feito uma criança que escapa dos limites de casa para brincar na rua.
A gente conversava apenas com os olhos, pois é assim que se falam as crianças, num pisca-pisca, num código que somente elas e estrelas sabem. Quando eu estava triste escondia-se nos meus olhos úmidos. Estes dias envelheciam mais cedo e ficávamos à espera até que minha alma se acendesse novamente e ela voltasse a vadiar no céu e eu aqui na terra.
Lembranças assim não se apagam mesmo que o tempo passe, mesmo que a gente passe, mesmo que a vida esmoreça. Estarão sempre na alma, poderão até perder o brilho, não perderão a força porque são saudades.
Eu nada sabia de estrelas nem do prazer de esperar alguém na janela. Uma noite, enquanto minha mãe rezava junto da minha cama, perguntei: mãe, para que servem as estrelas e como é que se seguram lá em cima? Ela não sabia, e, com seu jeito especial de me ensinar o mundo tentou: acho que servem para enfeitar o céu como as flores enfeitam as plantas e os frutos enfeitam as árvores e Deus as segura feito eu seguro na sua mão para você não cair. Elas também amadurecem? Não sei menina, deixa as estrelas em paz.
Então, por minha conta, aprendi a vê-la e ouvi-la feito o outro que ouvia e entendia estrelas.
Um dia, eu quis conhecer os mistérios do mundo e da minha alma que ameaçava crescer. Fechei a janela, abri a porta. Ela sumiu.
Hoje, sinto saudades da menina que era dona de uma estrela.


Extraído do livro Pecados de Areia

sábado, 2 de agosto de 2008

HISTÓRIAS APAGADAS


A derradeira saudade enlouqueceu. Diante de um pôr-de-sol apagou-se e, na noite, sumiu levando para longe a minha história. O que fazer com esta ausência dentro de mim, confundindo minhas indecisões? O que fazer? Também eu não sei. Louca? Loucas.
Tentei caminhar por antigos caminhos. Lembrei, apenas, da menina que trocou de tempo com a adolescente e, logo mais, com a mulher, a guardiã da saudade.

As lembranças mutiladas me envolveram. Rodopiei como um balão queimado. Das cinzas e da fumaça sobrou apenas uma pergunta amarga – sentir saudade de quê? De que sentir saudade?
A quem prestar contas da felicidade que nascera comigo? A quem perguntar pelos sonhos semeados, se já não posso reencontrar o tempo trocado que fez de mim uma mudança? Meu sonho me traiu. Tornou-se realidade. Resta-me, agora, uma saudade louca e um sonho infiel.
As mãos cheias de nuvens, o olhar de espumas, jogado na infinitude do tempo, num sentimento vazio, sem qualquer réstia de luz.
Já não posso sonhar ou me iludir com histórias, ou com o encanto das cores, dos perfumes e até mesmo da lembrança de sofrimentos que me fizeram feliz.
Tudo às avessas. Coração revirado, velho baú vazio, histórias apagadas. Nem lembrar, nem chorar, nem esquecer. Não sei o que fazer sem a saudade, sem os braços compridos das lembranças onde morro todas as noites e ressuscito todas as manhãs.
Fecho os olhos. Fotos apagadas, queimadas, excluídas. Alma posando nua para um infinito vazio
Até quando?

sexta-feira, 11 de julho de 2008

GENTE, É ISTO AÍ - Djanira Silva



Ao afirmar que vivemos num país de desonestos, esquecemos de que, onde existir o ser humano, sem limites nos seus desejos inconfessáveis de grandeza e de poder, haverá sempre alguém querendo enganar alguém. Para muitos, talvez a maioria, não importa os meios usados para alcançarem seus intentos, mesmo que, para tanto, tenham que abrir mão da própria dignidade. Falamos dos que roubam e enganam. Dos que fazem falcatruas para aumentarem suas contas bancárias.


A cada um de nós cabe uma reflexão: será que também não temos nosso lado falso, mentiroso, desonesto?
Começamos na escola, gazeando aulas, colando nas provas. Assim, enganamos pais e professores e estes, por sua vez, deixam muito a desejar. À medida que crescemos, fazemos muitas coisas às escondidas. Os pais nos olham com benevolência acham que somos anjos. Quando o barco afundar, irão junto, certamente.
Maridos e mulheres enganam-se uns aos outros.
Iludimos as crianças prometendo-lhes o que não podemos cumprir.
Se vamos ao médico - os Planos de Saúde que se cuidam - fazem-nos assinar papéis e mais papéis de exames, às vezes desnecessários. Alguns dentistas encontram cáries até em dente de alho. Se temos um funcionário ou funcionária em casa é preciso estarmos sempre alerta, um olho no padre outro na missa, e eles, também, porque os patrões fazem corpo mole na hora de assinarem a carteira, pagar o INSS e outras obrigações sociais.
Motoristas de táxis esticam as corridas sem necessidade. Passageiros, por maldade, queimam e rasgam os forros do assentos. Nos mercados somos enganados na pesagem e na qualidade das mercadorias. Funcionários públicos acham não ser nada demais levar para casa algumas folhas de papel ofício, uma borracha, um lápis uma caneta, caixas de clips, isto, quando não levam coisas de maior valor.
Seitas religiosas proliferam e prometem milagres, riquezas e curas impossíveis. Cobram um dízimo que vai para uma conta bancária que, certamente, não é a de Deus. Não conheço Banco que tenha conta em nome Dele.


Os vendedores de milagres enganam os tolos que esperam ganhar sem algum, fortunas e bens materiais. Enquanto os sabidos enriquecem, os pobres doadores ficam sem um pedaço do seus ricos salários mínimos. E o pior, é que as pessoas se iludem a si mesmas crentes de que já estão salvas. Enquanto isto, o nome do Senhor continua a ser usado em vão com a única finalidade de enganar o povo e o fisco que também faz sua parte, depena o contribuinte. Políticos enrolam os eleitores e estes vendem o voto a vários candidatos que prometem mundos e fundos e no final das contas só dão os fundos.


Agora, me pergunto: quem nunca enganou alguém? Se você disser que nunca mentiu, já estará mentindo.
Hoje li no jornal uma nota que dizia: o político fulano de tal ao morrer deixou a política mais pobre. Que besteira, quem ficou mais pobre foi o país, que continuará empobrecendo, a cada político vivo. Os que se vão nos enriquecem com suas ausências.
Nós, mulheres, então, vivemos de enganações. Pintamos os cabelos de vermelho, azul, dourado. As unhas das mãos e as dos pés de qualquer cor. Montamos num salto alto para aumentar a estatura, espichamos, até onde podemos, as pelancas flácidas do pescoço e do rosto. Algumas tiram tantas ao redor dos olhos que ficam deslumbradas, de olhos arregalados olhando para o passado. Enfim, privam os netinhos de conhecerem uma verdadeira senhora avó, elas
estão sendo clonadas em grande número. Muitas com caras novas e pernas velhas, trôpegas, mal conseguem se orientar. Todas iguais, beiços de apito, algumas com focinhos de castor de tanto botox, sem falar nas bochechas presas num sorriso paralítico. Só não conseguem dar um jeito nas mãos. que permanecem feito garras, cobertas por um couro seco e sem brilho denunciando que por detrás do reboco existe uma velha clonada.
E por falar em velhos, outro dia, enquanto estava na fila de um Banco, tive uma idéia: bem que se poderia criar uma Locadora de Idosos ou um “Disque velhinho”. Além da prestação de serviços, geraria novos empregos. Bastaria telefonar e logo nos mandariam um, alegre e disposto a ficar nas filas e fazer os abomináveis pagamentos.
Sem dúvida alguma, serei a primeira candidata.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

UM SONHO AMEAÇADO

Nunca hoje a saudade. Ontem. À noite. No silêncio. Nunca hoje a tristeza, ontem ao entardecer. Sempre hoje a procura, o desespero, a vontade de ver de novo.
Nos sons, os pensamentos dispersos, emaranhados nos sinais luminosos de outros mundos. Como encontrar o som de que preciso? Em qual deles reconhecerei tua voz?
Hoje, encontrei um caminho aberto e me perdi das minhas certezas, dos meus medos da falta de coerência. Tanto tempo aqui e não pude, nunca, aprisionar teu som. O pássaro, a gente prende, o canto é livre. O grito solto na escuridão das masmorras desafia o algoz, liberta a dor, desencarcera a alma. Ganhaste o direito de viver. A liberdade te deu asas, livrou tua alma de um corpo estranho. O meu, é a minha prisão onde ainda canto sem saber por quê. A saudade me fez refém, deixou-me em teu lugar.
Aquartelada no silêncio, tento decifrar o que me diz o vento, o vento que assobia assustando as palmeiras. O que dizem as ondas sobreviventes das tempestades, o que me conta o sol, a lua. as estrelas, as noites de agosto, perdidas nas vozes de ventos magoados.
A manhã nasceu escura amortalhando um dia triste. Acabo de ressuscitar. Assim, todas as manhãs. Vou sem saber se voltarei. Perco-me por caminhos estranhos que me contam histórias loucas, histórias minhas, histórias esquecidas.
Nem sei o que fazem estas lembranças aqui. Chegam como ladrões e me assaltam, ferem-me e vão embora prometendo voltar. Ponho minha alma na horizontal para enganar o corpo. Esqueço-me de mim por algum tempo até que o juízo volte. Sinto saudade da minha loucura, do meu pensamento vagabundo sem dono e dono dos espaços, das linhas, das entrelinhas, pensamento que me engana com mentiras que me esconde as verdades e me faz pensar que sou feliz quando, durante a noite, enlouquece e vagabundeia sem controle manipulado pelos sonhos.
Cansei de esperar. O quê? Não sei. Só sei que dentro de mim existe uma sensação de espera de algo que vai chegar, de algo que vai ser revelado, de alguma coisa que me livrará das dúvidas e dos receios. É esta espera que me mantém viva, alerta.
As noites são longas? Não sei. As luzes se apagam logo cedo e quando se reacendem revelam sonhos novos. Loucos? Todos são.
Os dias estão sempre de baioneta em riste. Vá, não vá. Pare, ande. Sonhe, não, não pode sonhar. Luzes se apagam, luzes se acendem nas frestas das portas e das janelas, iluminando o perdão apagando pecados.Um passo atrás do outro. O outro, ah! O outro.

domingo, 29 de junho de 2008

DESEQUILIBRIO


Tudo quanto escrevo é dor não é queixa.
A manhã está escurecida. As pancadas de vento castigam as árvores. O pensamento é culpado pelos desvios e pelas paradas.
Igual a qualquer pessoa normal, também tenho sonhos. Realizados são problemas.
Quem me garante que existe começo? Fim, sei que existe, às vezes choro.
As pessoas brigam, discutem, depois pensam que tudo passou. Desconhecem o veneno inoculado nas palavras, nos gestos, nos sorrisos, nas passagens do tempo.
Às vezes quero cantar e tenho medo de desafinar o mundo, quando falo ele gagueja, parece agonizar, então, sorrio para sentir a pulsação das minhas dores, elas caminham feito formigas sob a pele e para esquecê-las castigo-as com o engano de quem pensa que é feliz. É um jeito louco de sofrer, uma maneira estranha de enganar as idéias e então rio, rio e escrevo ao redor das tristezas amortalhadas dentro de mim. Sobre a mesa, o papel, as linhas, as linhas tortas onde Deus escreve os seus desejos certos. Nas retas tento me equilibrar.
O mundo está cheio de linhas. A primeira que conheci foi a do horizonte, limitou o meu olhar, deu asas à imaginação, abismo de luz onde à tardinha, cheia de saudade, eu via o sol se esconder.
Mergulho num mundo de sonhos e imagens. Perambulo por terras desconhecidas atravesso a linha que separa a terra do mar e a realidade do sonho. Na linha do trem o apito saudoso e melancólico me carrega pelas estradas de onde não sei se voltarei num vôo de solidão e medo. À noite, adormeço na linha horizontal da cama onde repasso, a cada noite as falas dos papéis que represento. Em quantas retas se divide o mundo e em quantas curvas ele se perde?
Cresci e caminhei nas linhas traçadas por quem sabia enganar a vida. As mais difíceis, as linhas de conduta. Ensinaram-me a ler. Sempre nas linhas. Nelas me ensinaram a pendurar letras e números, equilibrar palavras. Os dedos cheios de liberdade, de movimentos livres, recusavam-se a obedecer. Dessas, segui por outras sem saber que meu caminho estaria sempre marcado por elas.
Diante do piano mais um exercício de obediência. Diante dos olhos linhas, espaços, notas que nelas se seguravam e neles se aconchegavam.
Preciso controlar os fantasmas de idéias mal assombradas. Sinto que já não há muito o que dizer. Criar? Não sei se ainda existem idéias novas. Tanta coisa já foi dita. Penso no perigo de me repetir ou repetir os outros nestas linhas do meu caderno, cheias de armadilhas.
Aguarda-me a qualquer hora, a linha horizontal onde deporei as armas e entregarei a vida
.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

ENGANOS


Atravessei o mundo
Atravessei a rua
Para onde, meu Deus,
para onde?

A tristeza estraga-lhe a vida, gera na boca palavras amargas. Não quer perdoar. De mal consigo mesma, briga com o mundo.
Pensa em mudar sempre que o tempo muda. Fica na promessa. Assim, todos os dias. A dor apura as angústias. Não consegue se curar da solidão e nem da vida.
Contaram-lhe muitas histórias. A primeira da sua chegada ao mundo. A mãe na pobreza e no desengano. O pai, no meio do mundo. Fazendo o que? Ninguém sabia.
A menina acreditou na história da sua chegada, inventada pelos outros. À noite, rezava aquela história, como se fosse uma oração. Queria acreditar. Repetia, repetia, até que um dia misturou começo meio e fim.
Numa manhã bem cedinho, a mãe ordenou:
- Vá brincar no quintal.

Subiu na goiabeira. Dali descobriu outro mundo, um mundo sem dono e sem gente, que ia além dos limites dos olhos. Viu o céu mais de perto. Aprendeu a conhecer as nuvens de chuva, descobriu onde o sol se escondia. Tinha pena das pessoas grandes, preocupadas, esquecidas de viver, presas de uma vida que começava na sala e terminava na cozinha.
Então, soube, ali começava a vida. Sentiu-se nascida naquele momento, parida pelo sol em cima da goiabeira, no meio do quintal.
Um dia, ouviu a história da carochinha: “água, meus netinhos, azeite senhora vó”.
Não, sua avó não era igual àquela. Sua avó sabia das coisas, falava pouco. O pai falava pouco e não sabia de nada. A mãe, só escutava. Às vezes ficava triste sem dizer por quê.

Na hora de tomar banho, a menina chorava para não deixar o quintal. À noite ele era escuro e triste e ela dormia com o pensamento nos pintinhos dormindo embaixo da asa da mãe, no galo brigão tomando conta das galinhas empoleiradas, na torneira quebrada pingando água.
E as lagartixas, será que andavam à noite?
Tinha raiva porque não via o sono chegar.

terça-feira, 17 de junho de 2008

A MORTE CEGA






Acordo e vejo
Que durante o sono
Minha morte foi adiada
A vida prolongada
Posso ainda,
Jogar um se
gundo tempo


Antes que elas se fechassem eu precisava fugir. Fugir das portas, das janelas, das cortinas vermelhas, do fogo e do sangue. Na ânsia de atravessar para o outro lado, avistei seu rosto.
Da cadeira onde estava, como quem viaja, lançou-me um derradeiro olhar. A porta ainda aberta, sem chaves, sem grades, me permitia ver no espelho a imagem esfumaçada. Ali, em poucas horas, a ausência estraçalhou meus sonhos.
Vencedor da corrida deixava-me para trás. Nos lábios selados, o segredo das palavras omitidas. Assim, terminava a história que juntos havíamos começado: na tristeza e na alegria, na saúde e na doença. Fechava-se, no seu olhar, a derradeira porta.
Com a esperteza de um jogador que guarda uma carta na manga, jogara a última cartada, ganhara o jogo, deixando a maior e a pior das heranças - um espaço vazio dentro de um imenso nada. Sombras pintadas nas paredes, apenas sombras. Lágrimas de grafite na pureza magoada. Se tivesse me trocado por outra, eu teria o ódio para me ajudar a sofrer. Se tivesse partido sozinho eu o saberia no mundo, em qualquer lugar. Quem sabe, até poderia vê-lo de vez em quando, matar a saudade dos meus olhos. Mas, assim, do jeito que partiu, sem dizer para onde, foi covardia.
Antes que a porta se fechasse eu precisava fugir.
A linha do horizonte tingiu de sangue uma história apenas começada.
O que fazer do espaço vazio, como ocupá-lo, como avaliar os mistérios da alma que acabara de fugir sem dizer adeus?
No quarto, a cama, o sorriso, o abraço, o abraço que um dia capturou a inocência de quem ainda não temia as ameaças da vida. Na varanda a cadeira de balanço, as chinelas submissas, o jornal de ontem.
Foi assim, assim mesmo, ali mesmo que comecei a morrer.
Não era tempo ainda, e ele descobriu a saída. Cortando caminho, partiu por uma estrada que eu não conhecia. Naquela noite apagou-se no meu rosto o último sorriso verdadeiro, a alegria que me fizera multiplicar a vida, brincar de rodas, de coelho sai, passar o anel para ser feliz.
Calma, paciência, conformação. Quem inventou esta voz? Algumas palavras se reproduzem, bastardas, mentirosas, usam máscaras, riem, zombam como se fossem gente.
Naquela noite, um raio atravessou-me o corpo. Entre dois mundos dividiu minha dor. Onde estava a outra alma a que me entregaram para começar uma história?
Vingança, fuga, cilada? A supremacia do sábio que deixava para trás um emaranhado de lembranças de cheiros, de imagens. Coisas que a gente não sabe quando nascem nem quando morrem.
Agora, a solidão, monstro de muitas cabeças, voz de trovoada, agita-me os pensamentos. Cada vez mais compreendo menos. Meu mundo entrou em coma. A cada dia morre um pouco.
E assim, nos suspiros do vento ele partiu.
Ali fiquei sem saber para onde ir. Fechar os olhos e morrer também? Fugir? Para onde? Fiquei ali, ali mesmo fiquei olhando sem ver, escutando sem ouvir. Esta amargura tão grande, meu Deus, como suportá-la? O coração disparado, o rosto sem cor, as mãos geladas. Gritar? Como abrir o peito para soltar o grito? Preferi parar. Os ombros caídos, as mãos geladas, nos olhos uma ameaça de chuva.
O silêncio se multiplicava na sala, no quarto, na cama, na rua, no mundo. E doía e cravava as garras no meu corpo, na minha alma, no coração que não sabia parar as batidas descompassadas, pelos sustos da respiração.
E foi assim, assim mesmo, que ele se foi.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A NATUREZA HUMANA - DJANIRA

Os assírios fizeram uma representação, ou seja, criaram um símbolo que representava e homem e suas variadas formas de comportamento no meio social. A esfinge assíria de Khorsabad, também chamada de Kerub, era composta de corpo de boi, tórax de leão, asas de águia e cabeça de homem.
Será, por ser tão complexo, que o homem nunca está satisfeito nem com o que é, nem com o que tem?

Quem tem cabelos crespos faz chapinha para espichá-los, chamam de relaxamento. No meu tempo relaxado era sem-vergonha, preguiçoso,relapso.Quem os tem lisos faz permanente para cacheá-los. Quem é branco quer se bronzear, quem é preto faz feito Michael Jackson, toma banho de lua ou "contrai" uma doença para ficar branco. Quem é gordo quer emagrecer, quem é magro quer engordar. Neste troca troca existe apenas uma exceção – quem é pobre quer ser rico, agora, quem é rico não quer ser pobre nem que a vaca tussa. Daí sabermos que ninguém tem ideal de ser pobre, haja vista o discurso dos políticos – as águias - alguns mais calorosos - dizem gostar dos pobres e fazem deles escadas para chegarem ao poder, para tanto dizem-se mais espoliados do que eles, tudo isto com os olhos no poder do voto. Ainda não vi político sair pobre de algum mandato.
Quem na verdade está satisfeito com o que tem? As conversas com amigos- os leões - giram, geralmente em torno dos filhos. Cada um que conte mais vantagens. Esta é uma forma também de compensar as próprias insatisfações e a sensação de fracasso que sentimos, com relação a eles. Parimos, criamos e educamos. Não sabemos se fizemos o melhor, temos sempre a impressão de que falhamos em algum ponto. Se estão estabilizados na vida, achamos que apesar disso não lhes demos o carinho merecido. Se fracassam profissionalmente, pensamos que houve falta de orientação apesar do carinho que lhes demos. É comum sentirmos uma pontinha de inveja quando ouvimos alguma amiga exaltar os sucessos dos seus, o equilíbrio encontrado na vida social e profissional. Já experimentei esta sensação para depois verificar que quem está bem sou eu. Nos propalados sucessos há mais fantasia do que realidade.
Os programas de rádio e televisão levam ao ar toda sorte de problemas sociais, quer sejam em novelas ou em tele-jornais, é então, quando podemos avaliar o que fizemos ou deixamos de fazer pelos nossos. No mundo inteiro a miséria campeia. Crianças morrem de fome, são violentadas e não vemos nenhuma providência adotada pelas autoridades responsáveis para segurança e bem-estar da população. Lançam o peso dessa responsabilidade sobre o social quando, na verdade, os governantes que, geralmente depois das eleições passam a sofrer de amnésia, esquecem, por completo, as promessas feitas nas campanhas eleitorais. Recebemos, constantemente, pedidos de auxílio para esta, ou aquela entidade, geralmente ligada à infância e à adolescência. Seremos nós, por acaso, os responsáveis, ou o governo que coleta impostos sobre vários serviços, muitos com ares de ilegalidade e tira o corpo foram jogando em cima da sociedade o ônus pelos desacertos?
A humanidade desorientada baixa a cabeça e vai feito carneiros a caminho do matadouro.
Enquanto escrevo escuto a voz do mundo. Pessoas falam, outras pensam, todas sofrem. Um amigo me telefona, o filho resolveu ser policial. Há um verdadeiro rebuliço na família. Ninguém aceita a decisão do jovem. Então digo ao inconsolável pai que, é bem melhor ser soldado de polícia, do que poeta feito ele que não consegue entender nem seus próprios sentimentos. Vá lá.
A imaginação manda em mim e me mantém escravizada com punhos de ferro. Dela não posso fugir. Leva-me para onde bem quer, como agora, e me faz pensar na ironia de certas situações e no quanto somos impotentes para governar as nossas vidas. Fala-se do livre arbítrio. Foi o arbítrio que nos pôs no mundo.
Há um aniversário rolando por aí. Parabéns para o tempo que passa ou para a ilusão que fica. Para as velas acesas, logo depois apagadas. Assim, os sonhos. Para os doces que engordam e os salgados que tiram gosto, para o vinho que alegra ou entristece. Parabéns para quem canta descendo a ladeira.
Alguém me fala da diferença de destinos entre os membros de uma mesma família. Então eu penso, seria melhor ter nascido bicho. Entre eles os destinos são diferentes, mas eles não têm consciência disso. Um cachorro quanto mais bem tratado mais se afasta dos parâmetros de sua condição animal. Um vira-latas cumpre melhor o seu destino, anda por onde bem quer livre das malditas rações, dos passeios para fazer cocô e xixi, e dos cruzamentos com fêmeas escolhidas pelos outros. Às vezes penso que quem faz isto é um “cãofetão”.
Na verdade nos preocupamos muito com a morte, mas o que realmente importa é o tipo de vida que levamos. Se nos propusermos a uma observação mais radical, veremos que melhor seria termos nascido vegetais. Cada um com suas flores ou frutos, com suas cores e perfumes. Têm vida breve, mas, estão sempre voltando a viver. Voltam sempre para a terra de onde vieram e voltam como alimento. Se nascem nos palácios ou nos mangues, têm seus encantos. Veio-me então à mente um poema onde se diz que as flores tanto enfeitam a vida como a morte. Morrem livres sobre a terra, sob a luz do sol, respirando ar puro. Não se enterram flores mortas. Enterram-nas vivas para acompanhar a morte.
Afinal, a cabeça de homem da esfinge será que manda no resto do corpo? Ou os animais serão mais sábios? Mais tarde, em algumas dessas representações foi acrescentada a serpente. Com que finalidade? Talvez para complicar ainda mais a cabeça pensante.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

ALERTA - Djanira

Nunca ajude o incompetente
Invejoso e incapaz
Pois ele passa na frente
Deixando você pra trás

domingo, 8 de junho de 2008

CAMINHOS TORTOS

Não me recuses o direito de sentir. Amor é assim, nasce ninguém sabe como. Com ele frutifico amadureço e possivelmente morrerei. Autônomo, meu dono, morreremos juntos. Não tentes me transformar nem traçar caminhos para quem já está no fim da jornada. Eu sou assim, assim fui inventada e criada. Aprendi a dizer muito obrigada, por favor, e dane-se. Não posso dizer que aprendi o amor, ele nasceu comigo e se alguém matar minha alegria ele resistirá. Não me proibas de sofrer quando eu bem quiser. Não tens o direito de querer entrar nos meus pensamentos, não podes vasculhar minha alma do mesmo jeito que não posso entrar na tua. Ninguém pode nem deve caminhar sobre as feridas alheias e ignorar a dor de quem não quer falar. Não sou a mulher forte de que nos fala o Evangelho. Sou uma mulher comum, parida, que pariu sem aprender.
Quando o Mestre chamou os homens de sepulcros caiados, bem sabia que carregamos uma alma em decomposição. Sabia, ainda, que um sorriso nem sempre significa alegria, palavras de afeto nem sempre são verdadeiras e os afagos nem sempre são sinceros. Possuímos uma carga muito grande de maldades e desejos frustrados. Cobramos dos outros o que desejaríamos ser. Invejamos o que gostaríamos de ter.
Deus fez o homem para falar do mundo e das maravilhas por Ele criadas. No entanto, assim não ocorreu. Criado à imagem e semelhança do criador achou que poderia imitá-lo e até superá-lo. Não se limitou a aceitar o que recebeu, procurou modificar tudo, nem sempre para melhor.
Penso que Deus criou o homem para se divertir neste imenso circo onde nós, os palhaços, atuamos. Saímos da era da pedra lascada, pela força e pela destruição. Já vivemos vários períodos. O da pré-história onde tudo era tomado pela força - sempre a arma do poder. Atravessamos outras eras também de destruições, mortes e conquistas injustas. Tivemos períodos de paz e tranqüilidade, onde filósofos, pintores e escultores retrataram um mundo de beleza e criatividade. O homem atravessou todas as transformações. Se já foi macaco, não temos dúvidas. Somos verdadeiros símios recebendo ordens, imitando os outros, vestindo roupas desenhadas por estilistas que deixam as mulheres pra lá de macacas. Comemos o que a propaganda diz que é bom, dançamos a boquinha da garrafa, o créu e o tchan. Diferimos dos macacos porque eles não possuem a maldade humana nem o poder de inventar armas para destruir a própria espécie.
Pobres e ricos, sempre existiram, espertos também. Acontece que estes estão superando os outros e, às vezes, até a si mesmos.
A força, o poder, e a capacidade de enganar foram reunidas num só espécime – o político, figura criada pelo homem enquanto Deus criava o diabo.

sábado, 24 de maio de 2008

NO TEMPO

A vida se dissolve nas horas, nas sombras, nas passadas, nos sonhos, no nada. Nem ao menos podemos preservar os sonhos. No espaço deixado pelo que se foi, lembranças enterradas compulsoriamente.
Sobre o móvel, fotografias de um tempo adormecido. No piano compassos de valsas à espera do tom. O aniversário, a formatura, o casamento.
Das prisões dos porta-retratos as lembranças não podem fugir. A chuva espia pela vidraça. A roseira agradece. Fecho os olhos, desligo o pensamento. Volto para a cama. Medos me ssaltam.
O trovão assusta a menina: - Tem medo, não, filha, é Deus arrumando a casa. O relâmpago risca o fósforo, acende o céu. Sinhá Maria avivava-lhe as ilusões. Ainda não era tempo de verdades.
Rituais de chegadas e partidas. Mãos abandonadas, olhos fechados, ouvidos de silêncio. Sou eu? Nem sei. Uma estranha sabendo de mim o que não sei, dando voltas ao redor do nada.
Os sinos tocam.
Epifania, Eucaristia, Te Deum, anunciam e desanunciam a vida numa melancolia de noite de Natal ou na alegria do primeiro dia de um mundo inteiro a começar de novo - ameaça ritual de felicidade.
Metade da vida se vai, nos perdões vadios, nos arrependimentos vazios.
Fecha-se um tempo. A terra arquiva os escolhidos nos rituais das bênçãos e dos adeuses.
O corpo no chão. Nos pés, asas de Ícaro, sonhos derretidos, lágrimas de vidro.
O corpo no chão. Encantos de um maio branco, flores, altares, não e sim acasalados.
O corpo no chão. No olhar a certeza de uma alma esmagada.
Alma fantasiada. Monges, colombinas, palhaços, tudo sonho, tudo sonho, almas alegóricas vestem histórias de faz de contas. Era uma vez....
O corpo no chão, sinalizado: pare olhe escute.
A vida apita na curva.
Quem inventou a obediência inventou o arrependimento.
É preciso obedecer e saber que isto é isto é se já não me bastasse a respiração tenho que lhe acompanhar o ritmo. Morro quando não posso parar e só me resta seguir as pegadas alheias nos caminhos tortos sem paradas.
Visto-me com os farrapos dos meus enganos. Nasci assim, nem verde nem madura. O que me prendia ao tronco da matéria foi cortado e enterrado num vaso de rosas, ali, um pedaço de mim descansa em paz. Com os restos de um livre arbítrio risonho e falso, construí inutilidades.
O corpo no chão.
Olhe, pense, ria. Olhei sem pensar e ri na hora errada.
Ao amanhecer arrumo tesouros: um punhado de terra uma pá de cal.
Rasgo retratos antes que a traça os trace. Guardo o da família unida e imortal onde as crianças não crescem nem os velhos morrem. Queimo papéis, cartas, recados, promessas. Entrego meus livros para adoção. Alguns levam meus olhos cheios de espanto perdidos nas entrelinhas.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O MUNDO QUE ME CERCA

Não sou borboleta, nem abelha, e, menos ainda lagarta mas gosto de visitar, de vez em quando, o jardim. Foi o que fiz ontem pela manhã. Não para colher o pólen das plantas, não para enfeitar com minhas cores o jardim nem para me alimentar das folhas. Fui lá para aprender a vida.
Embora os vegetais sejam autônomos para retirar da terra a alimentação de que necessitam, alguns, principalmente as flores, carecem de cuidados especiais. As roseiras gostam de sol e muita água. As begônias de sombra e pouca umidade. O calachoe é um mistério. Já li em livros de jardinagem que não se deve aguá-los todos os dias nem molhar as folhas. Segui à risca as orientações. Algumas secaram, e de flores nem sinal. Fiquei surpresa quando, no inverno ficaram lindas, floridas. Mesmo assim não deixo de acreditar em informações. Tenho uma amiga, botânica, que entende da ciência das plantas. Alertou-me a respeito da ixoria, disse-me que as vermelhas têm um poder arrazador sobre as outras cores. Foi só então que me dei contas de que havia plantado uma branca perto de uma vermelha e ela morreu. Depois foi a vez de uma cor-de-rosa que teve o mesmo destino. Com a amarela aconteceu a mesma coisa. Acredito que na vida também é assim. Há pessoas com energias mais fortes que anulam as mais fracas. Será que entre as plantas também existe inveja? Quem sabe? Que elas brigam pelo sol, eu sei que brigam. Já tive um mamoeiro que de tanto se esticar para alcançar o sol que ficava encoberto por um abacateiro, terminou morrendo magro e seco em cima do muro.
A cantoneira ao redor do pé de pitanga está uma beleza. Plantei ali uma florezinhas dengosas chamadas onze horas. O relógio delas é um pouco diferente do meu. Abrem, antes das dez. Mal dá meio-dia, voltam a dormir feito gente que dorme depois do almoço. As flores possuem seus mistérios e, graças a Deus, ninguém consegue mudá-los.
Na entrada junto à parede tenho um pé de bonina. É outra plantinha dengosa, diferente. Enquanto as outras dormem ao meio-dia ela abre às três da tarde. Cheirosa que é uma beleza. Um perfume tão leve quanto suas pétalas macias. À noite, quando não chove ainda continua acordada. Deve amanhecer de ressaca.
As flores dos campos sobrevivem às intempéries. Resistem a tudo. Já as do jardim quando abandonadas à própria sorte, murcham, emurchecem e morrem. Há uma grande diferença entre murchar e emurchecer. As que emurchecem, quando recebem água, adubo e carinho, logo se recuperam. As que murcham não tem água que dê jeito.
Gosto de lidar com a terra, de plantar e replantar. Reservei um lugarzinho na sombra onde instalei uma espécie de UTI para onde vão as recém-plantadas e algumas ameaçadas de morte. Faço tudo o que posso. Desvelo-me em cuidados e carinhos. Fico triste quando tenho de substituir algumas. Não jogo nada fora, mesmo que seja um pequenino galho. Salvo-o dentro de outros jarros não importando se lá já exista outro inquilino. Geralmente se dão bem. É claro. Nem gente, nem bicho, nem planta gostam de viver sozinhos. Dificilmente encontramos uma palma de bananas ímpar. Elas nascem aos pares. A banana maçã tem até gêmeos. As pitangas e acerolas nascem em cachos. Nunca se viu uma uva sozinha pendurada num galho de parreira a não ser que a parreira esteja doente. É comum encontrarmos várias frutas com mais de uma semente ou caroço, como queiram. Os mamoeiros não dão frutos isolados. Os abacateiros, as mangueiras, dão cachos múltiplos. Gosto de observar os caprichos da natureza. Alguns, verdadeiramente me intrigam, como no caso de uma batata de lírio, de cor levemente salmão, que plantei e, para meu espanto, me presenteou com uma flor amarela. Só então me dei contas de que deveria ser influência da terra como ocorre com as hortênsias. Quando o solo é alcalino as flores nascem cor-de-rosa e dependendo da intensidade podem nascer até brancas. Em solo ácido nascerão azuis. Talvez aí esteja a resposta para a troca de cor do meu pé de lírio. Esta idiossincrasia não é privilégio das hortênsias.
Tive uma amiga que quando queria acentuar o tom azul violeta da sua plantação de hortênsias, colocava na água pedaços de lá de aço. Com a água enferrujada regava as plantas. O resultado era excelente.
Não só observando as plantas aprendo a vida.
O comportamento dos animais me fascina. Crio uma cadelinha que, todos os dias, logo que abro a porta, vai para o quintal tomar banho de sol. Se demoro a abrir a porta da cozinha ela sai por dentro de casa em busca de uma réstia de sol sob as janelas e ali se deita. No quintal, se exercita perseguindo a sombra das borboletas, ou das folhas que caem. Qual de nós, com toda a racionalidade, cumpre um ritual assim, tão benéfico? Sequer nos lembramos de nos espreguiçar pela manhã. É, sem dúvida alguma uma forma de alongamento.
É necessário que os programas de rádio e televisão repitam, todos os dias, as mesmas recomendações – o homem precisa caminhar, o corpo é uma máquina que precisa de movimentos, que precisa de um bom combustível para ter uma vida longa e útil. No entanto, nos alimentamos de forma errada. Empurramos para dentro da nossa pobre máquina qualquer bagulho bem temperado e cheiroso. Os animais têm limites para se alimentarem. Quando doentes não comem mesmo que lhes ofereçamos a alimentação de que mais gostem. As pessoas, não, mesmo doentes teimam em comer o que não podem. O diabético come doce escondido pensa enganar a morte. Coisas de gente, coisas de racionais.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

AMARGURA SEM ESPERANÇA

É preciso que a criança que fomos nunca deixe de existir. Não é apenas os ensinamentos dos adultos que formam nossa personalidade. Na simplicidade e na inocência do que fomos, existe uma semente de sabedoria. Conversando com os animais, observando as plantas, brincando com terra e água, cavamos os alicerces de um mundo real. O amadurecimento estraga a inocência. Tornar-se adulto é abrir com ferro e fogo os caminhos para um outro mundo. Por que não sermos sempre assim, simples como os sonhos leves das traquinices de quem ainda não sabe que é traquinando que se aprende a vida. Não é nas mesas redondas, nas reuniões de cúpula, nos congressos nem no engano de palavras purgantes, escritas para fazerem efeito, que se encontra a verdade e a beleza da vida. Ela está nas pequeninas coisas.

Enquanto trabalho no computador uma formiguinha de um lado para o outro caminha dando contas de uma tarefa que, certamente. lhe foi imposta por sua comunidade. Ela tem uma vida, um destino, um propósito, e, o mais importante, faz parte de um grupo organizado onde todos trabalham, onde todos se preocupam menos consigo do que com os outros. Perco horas espiando o ir e vir de formigas e abelhas, de pássaros ocupados em construir ninhos, onde possam deixar em segurança suas crias. E nós, nós os humanos, os racionais, os cientistas e conhecedores de todos os mistérios da matéria e da vida, o que fazemos? Temos medo uns dos outros. Cada um no seu caminho, preocupado apenas com seus sonhos, sonhos que para realizar, não pensa duas vezes antes de destruir ou atropelar seus semelhantes. Infelizmente, já não confiamos no que vemos, no que percebemos menos ainda no que sentimos. Nossos sentimentos não possuem homogeneidade. Quando crescemos e deixamos de ser crianças, é como se fizéssemos vestibular para a vida. Uma vida que recebemos por empréstimo e que, logo logo nos será tomada. Alguém me diz que estou triste, amargurada, sem esperanças. Não, eu estou apenas com os pés no chão vendo a realidade em cada canto pelo simples fato de haver recebido a enganosa condição de ser gente, de ter raciocínio. E o que nos traz de bom este raciocínio se não sabemos como administrá-lo? De que nos serve se temos medo do nosso irmão? Somos, atualmente, departamentos estanques. Cada um por si. E isto não é bom porque sozinhos não temos condições para discernir entre o certo e o errado. Precisamos sempre, de orientação e, infelizmente, quando nascemos não trazemos nem cartilha para orientar comportamentos, nem manual de instrução para dizer como devemos agir.
Sentimos falta de um líder que tome o pulso dessa multidão perdida.
A vida, não só perdeu o encanto, perdeu também o valor. Hoje é coisa banalizada. Mata-se por qualquer motivo e sem ele.
Comparo o nosso país à casa de uma mulher irresponsável que vai para a farra e deixa os filhos indefesos, trancados em casa, alumiados por uma vela acesa. Quando retorna encontra-os mortos, a casa destruída, incendiada. Esta é a nossa novela não das oito, mas de todas as horas, infelizmente, sem final previsto. Nossos governantes fecham a casa e mandam-se em viagens ditas filantrópicas com o intuito de ajudar países carentes esquecendo-se de que os carentes ficaram aqui trancados enquanto o fogo queima o barraco. Nos hospitais faltam leitos, material e pessoal capacitado. Pessoas morrem à míngua, na sua maioria crianças. Por que olhar para fora quando diante dos nossos olhos, o povo clama por ajuda? Os postos de saúde não têm condições de funcionamento. As escolas vão de mal a pior. Enfim, faz-se necessário que se cumpram as normas constitucionais isto é o mínimo que podemos exigir. A quem estou me dirigindo se, na verdade, não temos a quem dar queixa? Não sei se estou certa ou errada. Alguém me corrija, por favor.

sexta-feira, 25 de abril de 2008



NO CAMARIM

Ah! Eu queria ser sempre assim. Ser, ou estar? Nem sei, pouco importa o verbo, o tempo ou o modo. Gostaria mesmo era de subverter o mundo, mudar tudo, fazer como eu bem quisesse e entendesse. Acordar sem ter que abrir os olhos, levantar pensando que estou deitada, de manhã achar que ainda é noite e no domingo acreditar que é segunda feira. Ai, como eu gostava dos sábados de antigamente, cheios de segredos de surpresas e de um domingo logo depois. Hoje, detesto ambos. Feito gente eles morreram e me deixaram uma herança de amargura.
Ai, como eu queria ser sempre assim dormente e demente esquecida de me lembrar esquecida de viver, freando no meio da ladeira, voltando de ré sem freio e sem destino. E não me digam que não tenho paciência. Paciência para mim é jogo. Arrumo reis, damas e valetes numa seqüência bem comportada, dez, dezena, nove novena, treze, trezena, quatro pontes de safena que se bifurcam, árvores parindo folhas que apodrecem no chão. Não, não me digam que não tenho paciência. Jogo as cartas, misturo os naipes e trapaceio quando posso, para enganar a saudade.
Vivo bem os meus papéis.
Nos carnavais vesti-me de tirolesa, jardineira, dama antiga.
Hoje, compenetrada, visto-me para as representações de cada dia.
Quando nasci esperavam-me camisetas e fraldas para o primeiro papel. Vestidos brancos, marcaram os meus caminhos. Velas acesas, véus e grinaldas, asas de anjos. A vassoura, o avental, as panelas, as colheres de pau, o fogão. Os palcos espalhados por todas os lugares: a sala, a cozinha, o quintal. No quarto, o camarim, onde troco de roupas para cada cena. Visto-me de madame, bolsa combinando com sapatos, anéis pulseiras, brincos, colares. Não tenho nada de verdadeiro. Preciso de tudo isto, o papel exige. O batom desenha no meu rosto uma boca vermelha diferente da minha que é escura, sem contorno, inexpressiva. As tintas escondem o branco dos cabelos, os saltos altos aumentam a estatura de quem por pouco não nasceu anã. Dentro das roupas sou outra pessoa. Olho-me no espelho. Sorrio satisfeita. Dentadura alva, completa. Bem, completa graças ao milagre das próteses.
À noite, depois do banho, vejo escorrer, pelo ralo, toda a minha elegância, o batom, o rouge, o rímel e, para meu desgosto, uma porção de cabelos, mortos pela agressão das tintas. Ai, como eu queria de ser sempre assim, simples, sem máscaras, sem medos.

domingo, 20 de abril de 2008

LEMBRANÇA RESGATADAS

Cercados de flores por todos os lados os ponteiros giram em sentido contrário levando-me de volta. No tapete mágico viajo. Viajo como quem vai para não mais voltar. Buquês coloridos, margaridas, sempre-vivas, flores dos campos. As notícias? Num envelope, semeado de flores, as palavras da fada madrinha resgatam lembranças.
No pequeno quarto de uma casa antiga, quando mudava de idade, me encantava com os presentes ganhos. Coisas simples, carregadas de encanto e inocência. E, agora, quando já me pensava esquecida de tudo, chega-me, num passe de mágica, um doce apelo, o apelo da saudade. Sentada no chão do quintal estou de volta.

Na janela de uma caderneta debruada de flores debruço-me e olho para dentro e lá me encontro, novamente criança, sonhando, sonhando apenas. Fada-menina, misturo-me ás rosas, aos, beija-flores, aos girassóis. Nunca vou poder me despedir. O lenço veio para segurar os meus sorrisos. Não é lenço de dizer adeus. Voltarei.
Pequenos quadrados de papel, despertam-me o desejo de escrever coisas simples, coisas breves coisas leves, sussurros, versos simples, trovas de amor.
Os dias estão ali, contados nos cartões, numerados. Anunciam o que vem e o que vai. Já vou.

No tapete mágico volto e volto sorrindo porque alguém descobriu nas cores e nas flores, os meus segredos, os caminhos de voltar para a menina que não me esquece nunca.

sábado, 19 de abril de 2008

INDECISÃO

Durante muito tempo relutei em voltar. Para mim me bastava fechar os olhos e assim abrir uma porta para dentro de outro mundo. De repente, tudo estava lá, real, vivo à minha frente. Deslizava pelas paredes alcançando a porta e, feito quadros pendurados nas salas e nos corredores as cenas se desenrolavam. Isto, sempre, durante todos aqueles anos decorridos num átimo de tempo e que agora parecia-me uma eternidade. Minha vida era o assunto de uma longa história cheia de lutas, derrotas e desistências. É verdade que algumas vezes pensei em parar de lutar, aguardar que as coisas se fizessem que tudo acontecesse por milagre. Valeria a pena esperar? A única coisa que tenho de real, de verdadeiro é o sonho. Desde que comecei a aprender o mundo, entendi que o homem sem sonhos não é nada. Meus pensamentos destacavam-se um a um em detalhes, sem explicações, um mundo que me parecia obscuro onde eu me reconhecia quase intolerável. Davam-me notícias de um ontem que tenho vontade de esquecer, apagar da minha história jogar num escuro qualquer desses que guardo comigo. E se ficasse no meio do caminho? Como saber a hora certa?

quarta-feira, 16 de abril de 2008

REALIDADE

Livros, sapatos, roupas espalhadas
Da porta da cozinha até o portão
Sobre as camas toalhas encharcadas
Marcas de pés molhados pelo chão

Todas as salas são desarrumadas
A mãe impaciente ralha, em vão
Crianças correm rindo às gargalhadas
Sem darem ouvidos à reclamação

Passado o tempo a casa se esvazia
E a mãe sente saudade a cada dia
Daquela antiga desarrumação

Convive com a dor da realidade
Nas cadeiras vazias a saudade
Casa arrumada pela solidão

segunda-feira, 7 de abril de 2008

A IDADE DAS LEMBRANÇAS

Revivendo momentos felizes decretamos o fim da velhice O passado é um arquivo onde se guarda o tempo e onde são preservadas as imagens e as lembranças de todas as idades. É intransferível, inalienável, inviolável, personalíssimo. Membros de uma mesma família, de um mesmo tempo, têm percepções diferentes de acontecimentos comuns. Tecnicamente existe a expressão arquivo morto onde são recolhidas informações fora de uso. Portanto, quando assumimos o lado negativo da vida, nossas lembranças vão para esse arquivo.
Manhã de maio.
Vestido branco, flores de laranjeira. Vou ao teu encontro. Juntos partimos. O riso das crianças por toda a casa. De manhã, hora de irem para a escola, sono e muita preguiça, calço-lhes as meias. A roupinha azul, o monograma no bolso, caminhos de começar a vida. As travessuras, as coisas engraçadas que diziam, o sono na hora do jantar
Vê-los crescer e enfrentar a vida.
E, de repente, tua estrada termina.Os filhos se foram levando, cada um o seu arquivo. Estou sozinha, a casa arrumada pela solidão.
Manhã de chuva. A tristeza me cerca. Escuto o pio agourento de uma coruja. Penso que vou chorar. Fecho os olhos. Nos pés de oiti, os passarinhos cantam. O vento conta histórias de uma menina que conversava com gnomos e duendes, botava rabo de pano na saia da lavadeira e pintava os bigodes do gato com esmalte de unhas, fugia de casa para brincar na rua, levava palmada, e, no dia seguinte, fugia de novo para apanhar borboletas, colher pitangas, subir no pé de romã. “Desce daí, você cai”.
Abro os olhos, saio da cama com a alma criança. Lá fora, cantam os sabiás. À tardinha junto da janela olho o jardim. Beija-flores e borboletas, rosas, cravos e lembranças. “Borboleta quando quer se perder cria asas”. A voz da mãe me alcançava, prevenia dos perigos do mundo. Perigos que me atraiam nas mudanças anunciadas.
Deixei para trás as meias soquetes, os sapatos pulseira, os vestidos de menina. Cabelos sem laços sem tranças. Ainda não é tempo de ruge e batom nem de sapatos altos. Só depois dos quinze anos. Vestidos marcados na cintura denunciam as urgências do corpo. Imitar as artistas de cinema, nas roupas e nos trejeitos era moda.
Vivo, intensamente, nas lembranças da primeira valsa, das mensagens de amor, lidas no auto-falante, das músicas de Orlando Silva, Chico Alves, Dalva de Oliveira. Os primeiros namoros, o primeiro beijo desejos à flor da pele. O perfume do pé de jasmim plantado sob a janela, leva-me de volta às noites chuvosas de maio, noites de inverno quando o cheiro molhado das várzeas se espalhava pelas ruas e praças e pelos caminhos dos encontros proibidos. Na igreja, as flores, as velas acesas, o incenso queimando e o cheiro de lavanda nos cabelos. Lá fora, encontros marcados.
Fecho a janela, guardo comigo uma alma criança que não me deixa esquecer.
Tranco-me nos olhos com minhas saudades. Já não quero chorar. Lá fora pássaros cantam.
Tenho a idade das lembranças, e quando por acaso fraquejo, faço uma transfusão de saudade.

domingo, 6 de abril de 2008

SOLITUDE

Extraindo de mim o que não tenho
Corta minh’alma a aridez do mundo
O meu pesar é quase tão profundo
Quanto o abismo cruel de onde venho

Diante desta dor não me contenho
Procuro me encontrar e vou ao fundo
Deste abismo de dor tão infecundo
Do qual tento sair e me detenho

Perdida neste frio isolamento
Em que sinto minh’alma se esvair
E No qual sinto minh’alma mergulhar

Tenho a certeza - crucial momento -
De que não tenho sequer para onde ir
E se for, não terei pra quem voltar.