Ao afirmar que vivemos num país de desonestos, esquecemos de que, onde existir o ser humano, sem limites nos seus desejos inconfessáveis de grandeza e de poder, haverá sempre alguém querendo enganar alguém. Para muitos, talvez a maioria, não importa os meios usados para alcançarem seus intentos, mesmo que, para tanto, tenham que abrir mão da própria dignidade. Falamos dos que roubam e enganam. Dos que fazem falcatruas para aumentarem suas contas bancárias.
A cada um de nós cabe uma reflexão: será que também não temos nosso lado falso, mentiroso, desonesto?
Começamos na escola, gazeando aulas, colando nas provas. Assim, enganamos pais e professores e estes, por sua vez, deixam muito a desejar. À medida que crescemos, fazemos muitas coisas às escondidas. Os pais nos olham com benevolência acham que somos anjos. Quando o barco afundar, irão junto, certamente.
Maridos e mulheres enganam-se uns aos outros.Iludimos as crianças prometendo-lhes o que não podemos cumprir.
Se vamos ao médico - os Planos de Saúde que se cuidam - fazem-nos assinar papéis e mais papéis de exames, às vezes desnecessários. Alguns dentistas encontram cáries até em dente de alho. Se temos um funcionário ou funcionária em casa é preciso estarmos sempre alerta, um olho no padre outro na missa, e eles, também, porque os patrões fazem corpo mole na hora de assinarem a carteira, pagar o INSS e outras obrigações sociais.
Motoristas de táxis esticam as corridas sem necessidade. Passageiros, por maldade, queimam e rasgam os forros do assentos. Nos mercados somos enganados na pesagem e na qualidade das mercadorias. Funcionários públicos acham não ser nada demais levar para casa algumas folhas de papel ofício, uma borracha, um lápis uma caneta, caixas de clips, isto, quando não levam coisas de maior valor.
Seitas religiosas proliferam e prometem milagres, riquezas e curas impossíveis. Cobram um dízimo que vai para uma conta bancária que, certamente, não é a de Deus. Não conheço Banco que tenha conta em nome Dele.
Os vendedores de milagres enganam os tolos que esperam ganhar sem algum, fortunas e bens materiais. Enquanto os sabidos enriquecem, os pobres doadores ficam sem um pedaço do seus ricos salários mínimos. E o pior, é que as pessoas se iludem a si mesmas crentes de que já estão salvas. Enquanto isto, o nome do Senhor continua a ser usado em vão com a única finalidade de enganar o povo e o fisco que também faz sua parte, depena o contribuinte. Políticos enrolam os eleitores e estes vendem o voto a vários candidatos que prometem mundos e fundos e no final das contas só dão os fundos.
Agora, me pergunto: quem nunca enganou alguém? Se você disser que nunca mentiu, já estará mentindo.
Hoje li no jornal uma nota que dizia: o político fulano de tal ao morrer deixou a política mais pobre. Que besteira, quem ficou mais pobre foi o país, que continuará empobrecendo, a cada político vivo. Os que se vão nos enriquecem com suas ausências.
Nós, mulheres, então, vivemos de enganações. Pintamos os cabelos de vermelho, azul, dourado. As unhas das mãos e as dos pés de qualquer cor. Montamos num salto alto para aumentar a estatura, espichamos, até onde podemos, as pelancas flácidas do pescoço e do rosto. Algumas tiram tantas ao redor dos olhos que ficam deslumbradas, de olhos arregalados olhando para o passado. Enfim, privam os netinhos de conhecerem uma verdadeira senhora avó, elas estão sendo clonadas em grande número. Muitas com caras novas e pernas velhas, trôpegas, mal conseguem se orientar. Todas iguais, beiços de apito, algumas com focinhos de castor de tanto botox, sem falar nas bochechas presas num sorriso paralítico. Só não conseguem dar um jeito nas mãos. que permanecem feito garras, cobertas por um couro seco e sem brilho denunciando que por detrás do reboco existe uma velha clonada.
E por falar em velhos, outro dia, enquanto estava na fila de um Banco, tive uma idéia: bem que se poderia criar uma Locadora de Idosos ou um “Disque velhinho”. Além da prestação de serviços, geraria novos empregos. Bastaria telefonar e logo nos mandariam um, alegre e disposto a ficar nas filas e fazer os abomináveis pagamentos.
Sem dúvida alguma, serei a primeira candidata.