terça-feira, 17 de maio de 2011

SONHO AZUL

Hoje quero construir um dia com os encantos de todas as manhas. Das manhãs quando me acordava o calor das réstias de um sol indiscreto beijando suavemente o meu rosto iluminado de infância. Quero viver um hoje feito com traços de todas as manhãs que me viram sorrir, das que me viram chorar, das que me viram crescer. Delas colherei a brisa leve e sem pressa que roubava dos bogaris  perfume para os meus cabelos.
Quero apagar tudo quanto não seja manhã:o cheiro do café que minha mãe fazia e cheirava ali, na beira da minha cama despertando sem barulho a preguiça aconchegada no calor de uma cama cheia de histórias de um amor criança – o amor das cantigas de ninar, do leite adoçado com mel, dos sonhos descuidados dos dias simples e brancos que nunca mais voltarão. Colchão antigo. Colchão de palha, colchão de preguiça.
Quero as porteiras da várzea abertas para o riacho, os verdes pés de bananeiras, o mistérios de sapos conversando, as redes amarradas nas mangueiras, os balanços afoitos, os cabelos assanhados pelo vento.
Quero as manhãs feitas de inocência, inocência sem futuro, sem passado, só criança, criança e sapos contando histórias para sapo ouvir.
Quero as manhãs sem letras, sem lápis, sem livros. Manhãs de histórias contadas ao pé do fogão, o gato dormindo nas cinzas, Sinhá Maria inventando um mundo misterioso para onde era fácil ir e difícil de voltar.
Hoje amanheci esquecida. Quero lembrar e já não sei de quê. Meu coração balança entre o sonho e a ilusão. Amanheci num dia sem manhã.
Escondo-me nas sombras. Fecharam o meu telhado e as réstias de luz sumiram. A ventania derrubou os bogaris.
Restaram apenas gotas de orvalho se equilibrando nos meus olhos.
Vou dormir novamente para acordar num dia feito só de manhãs.







1 comentários:

Maria Dias disse...

...Penso que somos felizes com tão pouco não é mesmo?Eu também era muito feliz na minha infância(q foi muito simples)e ela voltou agorinha lendo as suas memórias...

Belo sonho azul!

Beijinho

Maria