segunda-feira, 28 de março de 2011

ALMA EM TRÂNSITO

Este mundo não é o meu. Finjo-me de viva para enganar a morte. Por entre as artérias das ruas transita o meu sangue, borbulha e lateja nos movimentos da ida e da volta. Enquanto isto o homem passa, passa a mulher, o cão late. Os mosquitos me deixam nervosa, as formigas me obrigam a escrever de pernas para o ar. O pensamento endoidece. A mulher passa. A estranha barriga    denuncia a passagem do homem.
O retrato sobre o piano um dia me contou uma história parecida e penso nela enquanto a mulher caminha e meu olhar a persegue subindo ladeiras, fazendo curvas nas esquinas, voltando vazio. 
Enquanto penso me transformo. Se penso em água me transformo em rio, se penso em pedra me transformo em barro. Por que esta doidice?
Corro atrás do menino que passa. Sou criança novamente. Tiro os sapatos, piso no chão. Que nada, piso nas nuvens. Vamos, vamos, diz alguém, chegou a hora. Que hora é esta que não consigo ouvir bater no sino nem ver escrita nos ponteiros dos relógios? Como partir se nada ainda está pronto? A imagem não quer se acender, a palavra se esconde nas dobras do papel. Onde será que enterrei a minha imagem? Fecho os olhos e mergulho. Escancaro abismos.
A praia, o rio avançando para o mar, a areia, o sol a anarquia das ondas. Por que estou só? Não cheguei aqui sonzinha. Tenho que voltar. Onde será que te esqueci?. No banco da praça? No repuxo da fonte? Será que te matei antes da morte? Que mágoa é esta que alimento agora? 
Não sei em qual parede tu te escondes.
Ontem, hoje amanhã. Em todos os momentos nos perdemos um do outro.

Estranha história que se escreve nas  ruas vazias, uma história antiga que inventou o esquecimento, história sem importância que não virou saudade, história sem jeito que não pode ser escrita, história que matou um personagem morto.
Se não consigo sorrir, preciso voltar. Que história, meus Deus! Que história!


2 comentários:

BRANCAMAR disse...

D. Djanira,

Fantástica esta sua narrativa, profunda, densa, a senhora é uma escritora enorme.
Em todas as linhas que li com muita atenção senti um desafio de interpretação e eu gosto de desafios, gosto da sua realidade tão belamente ficcionada, mas que continua ali bem real.
Gostava de ter podido vir cá mais nos últimos tempos, mas ainda bem que vim hoje.
Vou daqui sempre cheia da vida e dos momentos que nos transmite e que são de muita riqueza.

Beijos para a senhora
Branca

João Ludugero disse...

Olá Djanira,
Boa noite!

Gostei do seu blog, de verdade.
Muito bom estar aqui. Prometo voltar outras tantas vezes. Se tiver um tempinho, se puder, dê uma passada lá no meu blog (Ludugero desde que me entendo por Ludugero). É um site de Poesias, de textos e poemas que invento de escrevinhar. Se gostar, e puder me adicionar, vai ser um prazer. Se não, também não há problemas. Sua filha já está lá dentro, me seguindo. Deixo aqui meus sinceros abraços e lhe desejo um Feliz dia das Mães! Muita saúde, hoje e sempre. Tudo de bom. Muita paz e bem.
Atenciosamente,
João Ludugero,
um Potiguar metido a ser poeta. Obrigado!