terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SOMBRAS PARTIDAS

                                         
                                      
Num momento de angústia e de incerteza ela surgiu. A sombra fria do seu sorriso amortalhou o meu. O que sabia eu daquela criatura esquisita e estranha? A sua imagem era uma grande sombra deitada no chão, inerte, sem cor. Assim são as sombras. Por que me olhava aquela mulher? Seus olhos me fitavam como se nunca tivessem visto a vida. As mãos, feito garras crispadas esmagavam a própria carne. Os lábios apertados um contra o outro pareciam trazer presa, ainda, a tentativa de um último sorriso. Os pés fincados no chão firmes e imóveis esquecidos das estradas. Olhava-me a mulher sem sentimento algum. Parecia um sepulcro caindo aos pedaços,

Como me desafiasse, resolvi desafiá-la, decifrá-la. Fitei com firmeza os olhos vazios e inexpressivos e, com a insensatez de quem não teme perigos nem revelações, olhei como quem olha pelo buraco de uma fechadura, e vi, vi lá dentro o brilho dos cabelos dourados de uma menina antiga, muito antiga. Sim era ela, era a menina que estava presa nos olhos da mulher, daquela que parecia nunca ter visto a vida, a menina que um dia atravessou o mundo sem temer os perigos da travessia. Vi-lhe no rosto e nos lábios o mesmo sorriso que iluminava suas faces rosadas, e deixavam escapar a gargalhada cristalina que ecoava pelos caminhos misturada ao cantar dos pássaros.

A mulher sorriu. Seus pés se soltaram do chão. Dançava. Agora, dançava. E, pensando que sorria tentou enxergar o mundo com os olhos que nunca haviam visto a vida.

De repente o velho espelho à minha frente se desfez em mil pedaços.

3 comentários:

Mário Lopes disse...

Com que canção enganar o outono que nos cerca com o seu jogo de sombras?
Como preencher os dias sem o silêncio das águas?
Como nos aproximarmos da criança que mora no verão?



A Djanira é uma fonte onde a vida canta. As suas belas palavras o denunciam.
Beijo terno.

d'Alma disse...

Há momentos em que somos trespassados por severas memórias que julgávamos perdidas num canto qualquer de nossa memória!... Passamos muito tempo esquecendo recordações e as mil infâncias que nos fizeram crescer; talvez pelo desgaste e dos espinhos, das sombras e das noites que nos fogem ou, até, pelos dias cegos que não dedicam um só olhar sobre a Luz de um desejo!... Resta sempre um Infância, um riso brilhante de vida numa juventude que, na fantasia radiante de tanta vida, sonhava e à qual foram permitidos todos os sonhos!... Depois, esquecendo de sonhar, entre pesadelos discretos, não nos apercebemos que nem tudo, afinal nos foi permitido; nem todos os sonhos faziam parte dos sonhos!... Todavia, há sempre a Esperança de acordar e há esse Momento em que nos é oferecida mais uma oportunidade para... continuar a sonhar!... Há um olhar que rejuvenesce, um desejo que possui e uma nova felicidade à solta!...
E tudo isso é Vida Admirável!


Abraço

Multiolhares disse...

por vezes olhamos-nos e não nos conhecemos, por isso devemos manter sempre essa criança viva em nós pois é a sua simplicidade de ver a vida que nos faz cruzar o tempo com o sorriso nos lábios
bonito o teu cantinho, cheguei cá através do blogue da filhota
Bj