sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ELA CRESCEU?

 

 Ela cresceu. Menina sapeca, de olhos verdes atentos e curiosos, tornou-se moça, casou-se, teve filhos, ficou viúva, voltou a escrever.
Ela sempre disse que foi muito danada. Namoradeira. Curiosa. Que sempre esteve à frente do seu tempo.
Casou, mudou de vida. Teve que trabalhar duro. Da menina sapeca, à mulher trabalhadeira. Da menina curiosa, à adulta que foi inventar e se reinventar para criar os filhos, proporcionar estudos.

A menina não mais brincava de bonecas, brincou sério de ser dona de casa, esposa e mãe. Dos bolinhos de areia ao bolo de rolo e pé-de-moleque para aumentar a renda. Dos vestidinhos de bonecas, foi costurar para fora, fez até desfile de modas. Costurava, bordava, fazia crochê, tricô...sapatinhos de bebê, colchas, puff, almofadas, vestidos, turbantes, sacolas de plástico...nunca se rendeu ao cansaço.
Dos penteados das bonecas, ou nela mesma, a moça com rosto de boneca, colocou um salão de beleza em casa, cortou cabelos, alisou, fazia penteados. Nunca disse que não sabia fazer algo, dizia que sabia fazer e depois ia aprender, ou inventava. Um dia quase deixa uma moça careca, que veio alisar o cabelo e com a pasta de alisar metade do cabelo foi literalmente pelo ralo.
Os filhos eram cobaias, modelos. A filha, eu, a cada novo aprendizado de corte de cabelo iam-se minhas madeixas.
Trabalhou fora, quando muitas mulheres tinham a profissão – do lar. Foi a primeira socialista que conheci, hoje nega gostar do socialismo. Foi a primeira feminista que conheci, hoje diz não gostar do feminismo. Foi revolucionária para a sua época.
Digo que o tempo passa, ela diz que passamos pelo tempo. Ou um ou outro, a menina sapeca fez oitenta anos, e continua com tanta energia, que penso que ela brinca de esconde-esconde com o tempo.
Das lutas diárias, mesmo com todos os problemas que teve que enfrentar, transformou em lição de vida. Ficou viúva, chorou, se viu perdida com quatro filhos para criar, mas foi criando todos, dançando conforme a música, e inventando música para fazer a vida não deixar de dançar.
E, assim,  foi se resgatando. A escrita sempre foi a sua válvula de escape. Na infância tinha nos livros o seu mundo de sonhos. E foi transformando as lágrimas em poesias, as dores em contos, foi inventando personagens, e de si mesma fez uma grande personagem. Foi autora da sua própria vida.

Ela não cresceu, me enganei,  ainda está crescendo. Ela ainda vai brincar muito com o tempo.

Maria Paula Rego Barros

12 comentários:

Memória de Elefante disse...

Vim retribuir a visita.
Agora sei do "sangue" que pulsa nas veias de Paula...esta manifestação de carinho e orgulho foi emocionante e merecida!

Falar do desafio que é podermos escrever uma parte de nossa história pessoal e da dificuldade de sermos responsáveis por nossas escolhas com ternura, alegria e perplexidade.
Desta inquietaçaõ pelo mistério da vida.

PARABÉNS as duas!

Deixo meu beijo!

Anônimo disse...

Que belissima lição de vida.
Invejável.
Sou sua fã embora anônima, estou sempre esperando vc digo, a sra. postar algo.

Suy Maria Cavalcanti disse...

Djan é uma manifestação vibrátil de energia da Essência Divina. Tem a espontaneidade de uma alegria juvenil e eu a amo. Quando a conheci senti vibrar a sua áurea e eu sei que Deus estava entre nós, lá no Shopping Tacaruna. Eu recebi das mãos dela livros e afeto, cultura e amizade. E do seu caráter colhi aprendizados que a sua boca proferiu. Rimos da vida e ela contava, na ocasião que faria, sim, oitenta anos e eu entendi que em suas mãos havia a nobreza de uma grande mulher e fiquei envergonhada da minha simplicidade em dizer-lhe, sem pronunciar palavras, a minha alegria em conhecer os seus trabalhos literários e sua cultura.
Está dito.
Maria Cavalcanti

Eurico disse...

Parabéns, Paulinha.
Que mãe incrível vc tem!

Abraço fraterno, nas duas.

ParadoXos disse...

e a vida segue e prossegue em frente como um rio...


um abraço terno!

Ricardo Tafarelo disse...

De "próximo blog" em "próximo blog" encontrei o seu, e adorei.
Texto emocionante eim. Sou seu novo seguidor.

meu blog:www.meuhdexterno.blogspot.com

Rolando disse...

Olá. Bom dia! Aqui está muito legal. Gostei. Apareça lá. Abraços.

ELANE, Mulher de fases! disse...

eh Paula, arrasa mesmo, sua mãe é um exemplo, q linda, q vida maravilhosa, tenho um pouco dela, de fazer um pouco de tudo,kkkkk,ja aprontei cada uma,kkk
ah, aqui perto de casa tem uma rua com seu sobrenome, família chiqueee!!bjooo

BRANCAMAR disse...

Paula, querida amiga,

Comentei lá em cima o último post de sua mãe e agora que cheguei aqui me deslumbrei com a sua história e também de como escreve bem.
Sua mãe é uma senhora com muito charme, linda e fiquei admirando mais ela depois de perceber aqui que essa sua delicadeza lhe vem de dentro, da sua experiência de vida e da sua forte personalidade.

Um beijo para as duas, de admiração.
Branca

°Herbert ζ Sant° disse...

Eu ameiiii
de verdadee
talentoo*.*

Codinome Beija-Flor disse...

Agora descobri de onde veio o talento da Paula.
Parabéns!

Anônimo disse...

Eu também sou outra fã anonima, moro em Natal, e não li ainda nenhum livro de Djanira, mas por motivos alheios a minha vontade.